Dia
dos namorados, a culminância de inúmeros dias em que a cidade esteve quase
‘’vestida’’ pelo vermelho dos corações e
rosas adornando vitrinas que
exibem os mais diversos produtos para os mais diversos gostos e adequados aos mais
diversos ‘’tipos de namoradas e namorados’’ . Dia de buquês de flores
desfilando em braços de gente com olhar de que estou amando ou sou amado, ou de
entregadores que colhem a emoção do momento da entrega de flores ou de um
presente. Dia também, de pacotinhos coloridos nas mãos e de
passos apressados para um compromisso, restaurantes na penumbra de luz de velas...E
dando uma volta a noite pela cidade, tem-se a impressão de que não existe gente só, nem solidão, e me pergunto por onde
anda o restante de toda gente quem sempre se vê, não necessariamente aos pares de mãos dadas? Sendo felizes vendo um filme, uma
novela, cozinhando? Ou escondendo a solidão
(diante dessa possibilidade parece que se alguém sair sozinho numa noite dessas é um
alienígena perdido)?
E
de tudo que vejo, imagino e tento, quase que invariavelmente em vão, buscar nos
gestos, olhares dos ‘’namorados’’ e dos que a primeira vista não os tem, algumas respostas que acabam virando somente mais
perguntas, sobre algo talvez menos
alegórico, e talvez menos enfeitado de laços, fitas, cores, flores e corações: laços humanos no mundo de
hoje.
E
isso me faz lembrar um sociólogo chamado Zygmund Baumann que tem entre várias
obras, escreveu ‘’amor líquido’’, onde usa a metáfora da água, que é
contornável, flexível, absorvível, adaptável ao tamanho de qualquer recipiente,
contorna leitos dos rios, desvia rochas, ou as encobre conforme o caso, para
pensar nos relacionamentos, não só as relações amorosas, mas também as
familiares e de amizade. Ele nos provoca a pensar como isso se dá num tempo em
que estas relações se tornam cada vez mais flexíveis, que geram inseguranças
muito maiores, uma vez que estamos dando
prioridades a relacionamentos que ele chama de ‘’redes’’ os quais podem ser
tecidos ou desmanchados com facilidade – não sabemos mais manter
relacionamentos a longo prazo: vivemos a misteriosa fragilidade dos vínculos
humanos. O sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes
de apertar laços e ao mesmo tempo
mantê-los frouxos...porque seguramente não suportamos viver sozinhos, ao
tempo em que a vida pode nos oferecer algo melhor do que já temos...
Interessante
pensar quando Baumann, nos diz que existem “relacionamentos de bolso” ( posso
dispor quando necessário e guardar depois), relacionamentos tipo vitamina C (
em altas doses podem fazer mal a saúde), os relacionamentos CSSs – casais
semi-separados ( os que romperam a bolha sufocante do dos casais), relações como automóveis ( devem passar
por revisões regulares para termos
certezas que vão continuar funcionando)
ou os ‘’relacionamentos de ficantes’’ (descartáveis e não exigem investimento
pessoal e emocional) ou ainda ‘’relacionamento ficante-fixo’’ assemelha-se ao
relaxamento de bolso...
Creio que temos pensado o amor e os laços humanos, por
incrível que possa parecer, matematicamente, ou seja, custo/benefício, não de
mãos dadas, mas sim o que cada um pode investir, ganhar ou perder para si.
Daí pergunto-me para qual tipo de relacionamento vão o
investimento emocional os buquês,
pacotinhos coloridos, corações, jantares a luz de velas, declarações de
amor? Mas deixo uma frase de Baumann
quando fala no amor e no desejo: ‘’ Se o desejo quer consumir, o amor quer
possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu
objeto, o amor cresce com a aniquilação deste e se realiza na
durabilidade. Se o desejo se
autodestrói, o amor se autoperpetua’’.
Talvez Baumann
nos deixe menos ansiosos, menos confusos
ou com menos medo de arriscar a
estreitar laços.
PUBLICADO NO GAD NOTICÍAS em 14/06/2012