segunda-feira, 3 de setembro de 2012

''SÓ DE SACANAGEM''

Em tempos de campanha política para eleições municipais e também tempo de acirradas críticas por parte da sociedade e, mesmo pelos próprios protagonistas da classe políticas.... mas, ao cabo a escolha precisa ser feita através do voto ( consciente,de protesto, nulo ou mesmo em troca de favorecimentos pessoais e tantas outras ) Retomam-se as críticas à toda classe política desse país, além daquelas feitas aos políticos das cidades que moramos...A mídia tem um papel importante tanto para fazer refletir quanto para perpetuar situações como mensalão, CPI de Carlinhos Cachoeira e até mesmo, fatos e apurações, e não apurações sobre corrupção, subornos, locupretações, nem tão longe de nós... e mais, se nós olharmos no espelho todos os dias podemos nos perguntar, quantas vezes deixamos de ser éticos quando a situação nos convinha, em situações cotidianas da nossa vida como ''ditos'' cidadãos? Quantas vezes usamos o ´´tradicional jeitinho brasileiro'' para alcançar o que desejamos atalhando o caminho? Para pensar sobre isso, não seria eu capaz de escrever palavras tão significativas e explicativas sobre a realidade política, social, ética e moral quanto o poema de Elisa Lucinda, ''Só de sacanagem´´, que escolhi transcrever abaixo. ´´Meu coração está aos pulos! Quantas vezes minha esperança será posta à prova? Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: " - Não roubarás!" " - Devolva o lápis do coleguinha!" " - Esse apontador não é seu, minha filha!" Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem! Dirão: " - Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba." E eu vou dizer: "- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau." Dirão: " - É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". E eu direi: " - Não admito! Minha esperança é imortal!" E eu repito, ouviram? IMORTAL!!! Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final´´ SEM MAIS.... (certamente, sem mais a dizer!)

domingo, 29 de julho de 2012

A IMPORTÂNCIA DOS MUSEUS EM REDES

                            A IMPORTÂNCIA DOS MUSEUS EM REDES

Nanci da Cruz Mafalda[1]

            Com vistas a gerar valor, melhorar a qualidade dos serviços à comunidade, abarcar os custos, surgem alternativas de compartilhamento e redes de ações com o objetivo de garantir o cumprimento da missão do museu e ampliar o interesse do público, considerando o valor intrínseco da cultura para além do seu valor econômico.
            Assim, a partir da década de 1980, com o aumento do reconhecimento da participação dos museus no desenvolvimento social e nas políticas culturais das sociedades, os governos das nações europeias como Alemanha, Holanda, Inglaterra, Irlanda, França, Espanha e Portugal foram os primeiros a implantar o sistema de redes[2] de credenciamento e uma legislação específica para a área museológica. Gerou a explosão do universo de museus e a discussão do tema tecnologia, melhor dizendo, sobre a interface da tecnologia com as pessoas (CASTELLS, 2000).
            Essas ações e políticas culturais foram baseadas em alguns eixos fundamentais do ponto de vista conceitual os quais consideram a cultura como

Um vetor de desenvolvimento econômico e social, pois gera emprego e renda; uma ponte de entendimento do presente e não mais a representação passiva do passado; um instrumento da prática da cidadania, pois valoriza o indivíduo. [...]. As redes européias funcionam verticalmente, horizontalmente ou ainda por sistemas mistos e ao criado a partir de códigos internacionais de museus como o código de deontologia do ICOM e documentos formalizados em congressos de museus  como é o caso da Carta Cultural Iberoamericana de Museus. O objetivo é fomentar possibilidades e recursos para cada parte integrada na rede, incentivando o potencial de criatividade e possibilidade, bem como preencher lacunas com relação às necessidades  de cada museu, criando linguagem e espaço cultural comum. Além das redes de âmbito nacional, estadual e regional, existem também as redes internacionais como, por exemplo, a NEMO (Network Of European Museum Organization) e o próprio ICOM (Conselho Internacional de museus) que podem ser considerados como uma estrutura de trabalho em rede (CARVALHO, 2008, p. 53).


No Brasil, por sua vez, a estrutura em redes dos museus data da década de 1980, com alguns casos que não tiveram continuidade; mais recentemente, no final da década, já aos moldes do que propôs a nova Política Nacional dos Museus (PNM),  em 2003.
A Política Nacional dos Museus, através de seus principais eixos como a gestão e configuração do campo museológico, a democratização e acesso aos bens culturais, a formação e capacitação de recursos humanos, a informatização de museus, a modernização de infra-estruturas museológicas, o financiamento e fomento para museus e a aquisição e gerenciamento de acervos culturais, alavancou o desenvolvimento à criatividade, à produção de saberes e fazeres e ao avanço técnico-cientifíco do campo museológico. A partir desta preocupação, a ‘’comunidade’’ museal tenta mobilizar-se em direção procurar ou criar, como no caso do SISMU, ferramentas que possibilitem uma maior inserção do patrimônio cultural musealizado na vida social contemporânea por meio de ações de caráter educativo-cultural, da criação de formação de educação museal e patrimonial.
            O modelo de gestão da PNM está alicerçada da seguinte forma:
 










Fonte: Rafael Zamorano Bezerra – Ibram/MHN - Oficina de elaboração de
projetos e fomento para a área museológica.
12º  Fórum Estadual de Museus. 26,27 e 28 de abril de 2010. Santa Maria – RS.

A plataforma SISMU constitui-se em um instrumento capaz de efetivamente colocar os museus em rede democratizando tanto para sues pares quanto para a sociedade o do acesso aos bens culturais e diz respeito à formação de rede de colaboradores nacionais e porque não internacionais
O sistema e redes de museus constituem-se, portanto, num novo modelo de gestão administrativa que procura reforçar o diálogo entre os governos e as instituições museológicas, e destas entre si, traçando um panorama de compartilhamento, ou seja:

São modelos de caráter público, que visam, sobretudo, a multiplicar ações de reciprocidade e, por isso, a constituição de um planejamento sistêmico de museus vai depender das decisões políticas. As políticas culturais para a preservação do patrimônio museológico estabelecem as normas e os códigos de museus, recomendando a criação de redes de museus, redes estas que, por sua vez, potencializam e consolidam as políticas culturais. As redes são instrumentos de cooperação e desenvolvimento que podem diminuir desigualdades e diferenças, podendo inclusive reconstruir a imagem do museu junto à sociedade (BRUNO, 2005).

            Dentro desse contexto e tendo como ferramenta o novo Estatuto dos Museus é que as instituições enquadradas nos Sistemas de redes podem delinear suas políticas de ações.

BIBLIOGRAFIA:

BEZERRA, Rafael Zamorano. Minicurso de elaboração de
projetos e fomento para a área museológica.
12º Fórum Estadual de Museus. 5, 6 e 7 de maio de 2010. Santa Maria / Rio Grande do Sul. Power Point

BRUNO, Maria Cristina O.  A importância dos processos museológicos para a  preservação do patrimônio.  Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia, supl., São Paulo, n.3, p.333-337, 1999.

CARVALHO, Ana Cristina Barreto. Gestão do patrimônio Museológico: as redes de museus. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Artes Visuais da Escola de Comunicação e Artes  da USP. 2008.

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
IPHAN. Política nacional de museus: relatório de gestão 2003/2004.



[1] Coordenadora do Museu Olívio Otto – Carazinho/RS – Pedagoga e Mestre em Educação com ênfase nos Estudos Culturais.
[2] O modelo cultural de organização social em redes foi proposto pelo sociólogo espanhol Manuel Castells na década de 1980, baseado em seus estudos sobre a cultura frente à tecnologia, melhor dizendo, sobre a interface da tecnologia com as pessoas (CASTELLS, 2000).

sexta-feira, 27 de julho de 2012

NADA MAIS PÓS-MODERNO QUE O ''MALUCO BELEZA''


SÉCULO XXI 

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Há muitos anos você anda em círculos
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiu

Você vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

Você cruzou todas as fronteiras
Não soube mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou

Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum

Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI


quinta-feira, 14 de junho de 2012

AMOR LÍQUIDO E LAÇOS HUMANOS


Dia dos namorados, a culminância de inúmeros dias em que a cidade esteve quase ‘’vestida’’ pelo vermelho dos corações e  rosas  adornando vitrinas que exibem os mais diversos produtos para os mais diversos gostos e adequados aos mais diversos ‘’tipos de namoradas e namorados’’ . Dia de buquês de flores desfilando em braços de gente com olhar de que estou amando ou sou amado, ou de entregadores que colhem a emoção do momento da entrega de flores ou de um presente. Dia também, de pacotinhos coloridos nas mãos e  de  passos apressados para um compromisso,  restaurantes na penumbra de luz de velas...E dando uma volta a noite pela cidade, tem-se a impressão de que não existe  gente só, nem solidão, e me pergunto por onde anda o restante de toda gente quem sempre se vê,  não necessariamente aos pares de  mãos dadas? Sendo felizes vendo um filme, uma novela,  cozinhando? Ou escondendo a solidão (diante dessa possibilidade parece que se alguém  sair sozinho numa noite dessas é um alienígena perdido)?
E de tudo que vejo, imagino e tento, quase que invariavelmente em vão, buscar nos gestos, olhares dos ‘’namorados’’ e dos que a primeira vista não os tem,  algumas respostas que acabam virando somente mais perguntas,  sobre algo talvez menos alegórico, e talvez menos enfeitado de laços, fitas, cores,  flores e corações: laços humanos no mundo de hoje.
E isso me faz lembrar um sociólogo chamado Zygmund Baumann que tem entre várias obras, escreveu ‘’amor líquido’’, onde usa a metáfora da água, que é contornável, flexível, absorvível, adaptável ao tamanho de qualquer recipiente, contorna leitos dos rios, desvia rochas, ou as encobre conforme o caso, para pensar nos relacionamentos, não só as relações amorosas, mas também as familiares e de amizade. Ele nos provoca a pensar como isso se dá num tempo em que estas relações se tornam cada vez mais flexíveis, que geram inseguranças muito maiores, uma vez que estamos  dando prioridades a relacionamentos que ele chama de ‘’redes’’ os quais podem ser tecidos ou desmanchados com facilidade – não sabemos mais manter relacionamentos a longo prazo: vivemos a misteriosa fragilidade dos vínculos humanos. O sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes de apertar laços e ao mesmo tempo  mantê-los frouxos...porque seguramente não suportamos viver sozinhos, ao tempo em que a vida pode nos oferecer algo melhor do que já temos...
Interessante pensar quando Baumann, nos diz que existem “relacionamentos de bolso” ( posso dispor quando necessário e guardar depois), relacionamentos tipo vitamina C ( em altas doses podem fazer mal a saúde), os relacionamentos CSSs – casais semi-separados ( os que romperam a bolha sufocante do dos casais),  relações como automóveis ( devem passar por  revisões regulares para termos certezas que  vão continuar funcionando) ou os ‘’relacionamentos de ficantes’’ (descartáveis e não exigem investimento pessoal e emocional) ou ainda ‘’relacionamento ficante-fixo’’ assemelha-se ao relaxamento de bolso...
Creio que temos pensado o amor e os laços humanos, por incrível que possa parecer, matematicamente, ou seja, custo/benefício, não de mãos dadas, mas sim o que cada um pode investir, ganhar ou perder para si.
Daí pergunto-me para qual tipo de relacionamento vão o investimento emocional  os buquês, pacotinhos coloridos, corações, jantares a luz de velas, declarações de amor?  Mas deixo uma frase de Baumann quando fala no amor e no desejo: ‘’ Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aniquilação deste e se realiza na durabilidade.  Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua’’.
Talvez  Baumann nos deixe menos  ansiosos, menos confusos ou com menos  medo de arriscar a estreitar laços. 

PUBLICADO NO GAD NOTICÍAS em 14/06/2012

quinta-feira, 31 de maio de 2012

MANUAIS DE SOBREVIVÊNCIA PARA OS DIAS DE HOJE

Segunda- feira, 28 de maio, 23h. Minha filha chega da faculdade e troca o canal da TV. Eu, que estava ocupada com outros afazeres (domésticos) passo pela sala e que vejo na telinha me chama a atenção. Canal GNT, e efetivamente o recorte da cena que me capturou foi a de uma moça ‘’ensinando’’ como andar de sapatos de saltos altos. Dentre as instruções básicas estavam: não flexionar os tornozelos, soltar os quadris e encolher o abdômen, para que você consiga caminhar sobre um salto número dez com elegância e sensualidade. O interessante foi que no primeiro momento  enquanto,  a apresentadora falava, uma modelo  atrás dela demonstrava como ficava  a postura do corpo quando se  caminha ‘’errado’’ usando um salto 10 e depois obviamente a demonstração da postura correta. Achei cômico esse primeiro momento da cena, e foi o que me fez parar para assistir com minha filha.
            Essa foi a inspiração que fez ter vontade de hoje conversarmos sobre os manuais de sobrevivência no mundo pós-moderno. Observe, basta passarmos no caixa do mercado lá estão nos jornais e revistas os nossos manuais: como perder tantos quilos em tantos dias ou ‘’pense magro ou pense gordo’’; como ter uma alimentação saudável, como manter a forma; como maquiar-se para qualquer ocasião... e por aí vai, plataformas midiáticas como a televisão internet, livrarias estão lotadas de ‘’dicas’’ a orientar e conduzir nossas vidas: como cuidar de nossos bebês; como criar adolescentes; como envelhecer com qualidade de vida; como encontrar um grande amor ao e se você tem um como não perdê-lo; como fazer sexo; como manter seus dentes brancos ( e aqui autorizando e dando credibilidade ao anúncio veiculado em qualquer meio de comunicação tem sempre um dentista) como organizar  seu tempo; como decorar sua casa;  como educar seus filhos (Super Nanny); como vestir-se, combinar assessórios...ah, como arrumar suas malas para viagem; conforme seu estilo ( e temos de descobrir qual o nosso) que roupas básicas precisamos ter no nosso roupeiro....
Sem contar com a leitura de auto ajuda que é uma das mais vendidas e requisitadas nas estantes das bibliotecas. Está certo que manuais de etiqueta e comportamento sempre existiram, pois vivemos numa sociedade civilizada, especialmente depois da idade média para cá e temos Norbert Elias (1990), que em seu livro ‘’Processo Civilizador – Uma história dos costumes, analisou esse processo que influenciou regras sociais, e que foram manuais que modificaram o modo de viver em sociedade, aliás, hoje comemos utilizando talheres graças as esses manuais que ditavam normas adequadas aos indivíduos para que esses pudessem ascender socialmente, ou seja, ‘’ não se deve comer com as mãos’’,  nem coçar partes ‘’íntimas’’ do corpo na frente de demais pessoas e por aí vai ( interessante e divertido de ler).
            Mas a questão que fica é vivemos num mundo tão tecnológico e realmente dito em crise, mas também, de muitas facilidades e possibilidades, e por isso mesmo nos sentimos tão perdidos e incapacitados de gerir nossas vidas, que precisamos realmente de alguém que nos diga como organizar  nossos armários, arrumar nossas malas e tantas coisas mais??? Pare! Olhe ao sue redor, preste atenção! Se pergunte, alguma vez você já utilizou alguma ‘’ ‘’manual de sobrevivência’’? Fico pensando na geração de nossos pais e avós. Todos sobreviveram e viveram.... claro que os templos são outros, mas não deixa de ser interessante pensar em como ou em quem gere nossas vidas.
 Publicado em 30/06
GAD Jornal
Nanci da Cruz Mafalda - Analista Cultural

quarta-feira, 16 de maio de 2012

UMA MALA DE RODINHAS E A (IM) POSSIBILIDADE CRIAR RAÍZES E LAÇOS.


               Essa escrita vem de minhas angustias, juntadas as que leio e pesquiso, mas especialmente porque acredito que posso olhar pessoas especiais  e conseguir ver um pouquinho, muito pouquinho da essência que essas possuem, mas que são capazes de mobilizar em mim similitudes...e essa escrita foi inspirada em uma pessoa muito especial...

 Em uma de minhas colunas utilizei a metáfora da mochila de rodinhas para falar de educação, hoje utilizo de uma metáfora semelhante para falar de relações humanas: a mala de rodinhas, um artefato cultural, que se formos pensar é um dos mais significativos no mundo de hoje. Um objeto como esse que comumente temos  em casa, e é de rodinhas porque nos traz a comodidade  nas nossas idas e vindas porque às torna mais leves e a saúde física do nosso corpo agradece e todos sabemos disso . Mas,  há outra forma de pensar sobre os efeitos da praticidade da mala de rodinhas, pois afinal o mundo nunca foi de tanto movimento, nunca tivemos, tantas razões, motivos e necessidades que nos levam a nos locomover de um lado para outro:  a necessidade pela busca de meios de sobreviver ligadas a profissão  entre outras, é uma delas.
O mundo de hoje nos dá a vantagem da agilidade e rapidez através dos  meios de locomoção e de comunicação, pois afinal podemos estar  a milhares de quilômetros e nos comunicar em tempo real com nossa família, nossos filhos e amigos, mas percebo que talvez tudo isso não seja tão prático assim quando pensamos em relações humanas,  que como a milhares de anos exige proximidade física, exige o olhar, o abraço... e percebo portanto que  aquele registro de nascimento (outro artefato cultural)  que diz de onde somos, a que lugar pertencemos e determinante sobre onde ‘’devíamos’’ construir nossas raízes foi destituído do indicativo de onde as pessoas pertenciam e tornou-se   apenas  um documento de ordem burocrática.  Mas, o que quero destacar é que vejo pessoas  (especialmente a nossa geração nascida nos de 60 e 70) angustiadas, por vezes estressadas,  e o mais grave tornando suas relações (im)pessoais, senão descartáveis, ao menos quase,  como os produtos que hoje compramos e tem uma durabilidade reduzido, porque é preciso consumir mais, pois vivemos no mundo do consumo e não mais da produção.
 Para a geração mais nova  isso me parece mais assimilável. Mas não,  quando, por exemplo, vejo um pai, angustiado, porque precisa, ‘’necessita’’  distanciar-se  da filha, porque precisa buscar seu lugar, que não é onde nasceu, nem onde está agora, mas em função de buscar  um ‘’bom lugar’’ para sobreviver e viver mesmo em nome dessa filha que me pareceu muito amada...um lugar  ainda incerto!
                Portanto, não foi possível deixar de pensar na mala com rodinhas, que nos alivia o peso do corpo, faz bem a saúde, é cômoda e prática, mas que  aumenta o peso da alma e leva essa geração que transita entre modernidade (quando nossos pais nos ensinavam que tínhamos construir uma carreira, formar uma família, fixar-se...) e a pós-modernidade (momento que nos encontramos em crise, profissional, pessoal emocional...onde nada é fixo) ao limite extremo de nos  submeter  ao teste daquilo que nos faz essencialmente  humanos, os laços pessoais, o vínculo, o afeto, a proximidade, o amor.
 O mundo atual nos diz a todo o momento:  ‘’não crie raízes, pois não dá mais para sobreviver assim’’ e pensamos,  ‘’posso então criar laços’’...acredito sim, que possamos criar tudo isso em outras bases, mas até quando  estas bases resistirão, se um dia estamos aqui, outro ali, na eterna busca por sermos sujeitos do mundo, por  sobrevivermos, por  termos coisas...e a  minha/nossa geração fica a pergunta: quantas pessoas esquecemos pelo caminho? Quantas somos capazes de levar sem prejuízo, junto de nossa bagagem?  Quantas um dia voltaremos para buscar e não estarão mais onde pensemos ter deixado? Saberemos nós, viver de pequenos (grandes)  momentos de existência somente?  Saberemos partilhar ou construir histórias de vida não descartáveis? Ou  nos valerá sermos grandes sujeitos do mundo somente  com um amontoados de histórias para contar?
                Resposta? Sempre bem vindas....

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e Analista Cultural

domingo, 6 de maio de 2012

UMA ‘’CULTURA (IM)PRÓPRIA DE NÓS EDUCADORES’’ – IV SEMINÁRIO NACIONAL DE EDUCAÇÃO -


Nos dias 25, 26, 27 de abril passado tive a oportunidade de participar em três momentos distintos (como ouvinte, como oficineira e apresentando um artigo e pôster) do IV Seminário Nacional de Educação promovido pela Secretária Municipal de Educação e Cultura de Carazinho, que tinha como tema proposto para reflexão: ‘’ Tecnologias, Humanismo,  e Cooperação: as novas faces da Avaliação’’.
Tema sem dúvida pertinente ao momento que pelo qual passa e transpassa as discussões a respeito da educação no país ’, e são tantos mais os temas pertinentes às discussões sobre educação nos dias atuais. Importantes falas foram feitas, importantes trabalhos foram apresentados neste seminário, mas o que aqui quero me referir não é diretamente ao tema, nem aos palestrantes ou oficineiros que por passaram, mas o que esses sujeitos podiam ver do lugar de onde falavam: NÓS EDUCADORES, que lá estávamos (ou não – e esse ‘’não’’ entendido como uma opção por realmente não estar presente, como um ‘’não’’  que transparece na forma de reagir à um momento em somos ‘’convocados’’ a parar para repensar sobre a nossa prática pedagógica e aí sim temos a opção de ali estar comprometidamente ou  apenas de corpo presente sem generalizar é claro,   ).
Sei como professora pertencente ao um sistema de ensino que temos uma tendência natural a  reagir a tudo que nós é imposto por decreto (mas chamo atenção para o fato que também temos consciência de que nos propomos a fazer parte desse sistema. Estudamos, fizemos concurso...) e isso, é claro não acontece somente no campo da educação.
Michael  Fullan (especialista em gestão da educação), formulou o princípio básico de ‘’é impossível obrigar-se a fazer aquilo que realmente importa’’. E colocando-me no lugar de quem nos olha ( no caso os palestrantes) e observando as avaliações de corredores, do colega sentado ao lado ou a frente, nos corredores  pergunto-me: sendo EDUCADORES qual a postura que apresentamos nesses momentos? E qual postura como EDUCADORES nas nossas escolas ou outros ambientes pertencentes à mesma instância educativa nós temos? Sei que em oportunidades de discussão como esse têm momentos mais proveitosos outros menos, mas todos são passíveis de reflexão, creio ser esse o propósito, afinal. E aí reside uma questão intrigante, senão lamentável que se torna perceptível, pela insistência em posturas questionáveis que estão ficando tão arraigadas a imagem do EDUCADOR, que é uma cultura de reflexão e crítica de antemão, senão posteriormente baseados nos mesmos pressupostos, e o detalhe importante aqui é que são os mesmos pressupostos de muitos outros momentos iguais ou parecidos com esse. Então pergunto como fazer uma educação melhor em NOVOS tempos? Como sermos valorizados como profissionais de um NOVO tempo?  Se nos fechamos ao novo, se nos fechamos a possibilidade de ver no ‘’nem tão bom’’ ou no ‘’ruim’’ uma NOVA maneira própria de pensar? Será que somos capazes de RECONHECER e VER o bom? Que nos falta para quebrar essa CULTURA (im)própria que incide na identidade de nós EDUCADORES? Como superar  de modelos mentais subjetivos, as vezes, tão enraizados na nossa identidade de EDUCADORES? E como desmistificar  a imagem que infelizmente temos deixado transparecer diante da sociedade no sentido de quem somos, o que parecermos ser e o que devemos ser quando temos um papel social fundamental?
Para deixar um viés possível de pensarmos sobre isso, e a temática do seminário é rica para isso (Tecnologias, Humanismo, e Cooperação), cito (Cornelis, 1998), quando ele afirma “lidar com questões e situações novas com base em velhas ideias vai, com certeza produzir verdadeiras catástrofes em termos de aprendizagem”.
 Quem sabe devíamos não só olhar para quem nos fala, mas não seria  interessante olharmos para nos mesmos enquanto EDUCADORES.
Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e Analista Cultural