quinta-feira, 31 de maio de 2012

MANUAIS DE SOBREVIVÊNCIA PARA OS DIAS DE HOJE

Segunda- feira, 28 de maio, 23h. Minha filha chega da faculdade e troca o canal da TV. Eu, que estava ocupada com outros afazeres (domésticos) passo pela sala e que vejo na telinha me chama a atenção. Canal GNT, e efetivamente o recorte da cena que me capturou foi a de uma moça ‘’ensinando’’ como andar de sapatos de saltos altos. Dentre as instruções básicas estavam: não flexionar os tornozelos, soltar os quadris e encolher o abdômen, para que você consiga caminhar sobre um salto número dez com elegância e sensualidade. O interessante foi que no primeiro momento  enquanto,  a apresentadora falava, uma modelo  atrás dela demonstrava como ficava  a postura do corpo quando se  caminha ‘’errado’’ usando um salto 10 e depois obviamente a demonstração da postura correta. Achei cômico esse primeiro momento da cena, e foi o que me fez parar para assistir com minha filha.
            Essa foi a inspiração que fez ter vontade de hoje conversarmos sobre os manuais de sobrevivência no mundo pós-moderno. Observe, basta passarmos no caixa do mercado lá estão nos jornais e revistas os nossos manuais: como perder tantos quilos em tantos dias ou ‘’pense magro ou pense gordo’’; como ter uma alimentação saudável, como manter a forma; como maquiar-se para qualquer ocasião... e por aí vai, plataformas midiáticas como a televisão internet, livrarias estão lotadas de ‘’dicas’’ a orientar e conduzir nossas vidas: como cuidar de nossos bebês; como criar adolescentes; como envelhecer com qualidade de vida; como encontrar um grande amor ao e se você tem um como não perdê-lo; como fazer sexo; como manter seus dentes brancos ( e aqui autorizando e dando credibilidade ao anúncio veiculado em qualquer meio de comunicação tem sempre um dentista) como organizar  seu tempo; como decorar sua casa;  como educar seus filhos (Super Nanny); como vestir-se, combinar assessórios...ah, como arrumar suas malas para viagem; conforme seu estilo ( e temos de descobrir qual o nosso) que roupas básicas precisamos ter no nosso roupeiro....
Sem contar com a leitura de auto ajuda que é uma das mais vendidas e requisitadas nas estantes das bibliotecas. Está certo que manuais de etiqueta e comportamento sempre existiram, pois vivemos numa sociedade civilizada, especialmente depois da idade média para cá e temos Norbert Elias (1990), que em seu livro ‘’Processo Civilizador – Uma história dos costumes, analisou esse processo que influenciou regras sociais, e que foram manuais que modificaram o modo de viver em sociedade, aliás, hoje comemos utilizando talheres graças as esses manuais que ditavam normas adequadas aos indivíduos para que esses pudessem ascender socialmente, ou seja, ‘’ não se deve comer com as mãos’’,  nem coçar partes ‘’íntimas’’ do corpo na frente de demais pessoas e por aí vai ( interessante e divertido de ler).
            Mas a questão que fica é vivemos num mundo tão tecnológico e realmente dito em crise, mas também, de muitas facilidades e possibilidades, e por isso mesmo nos sentimos tão perdidos e incapacitados de gerir nossas vidas, que precisamos realmente de alguém que nos diga como organizar  nossos armários, arrumar nossas malas e tantas coisas mais??? Pare! Olhe ao sue redor, preste atenção! Se pergunte, alguma vez você já utilizou alguma ‘’ ‘’manual de sobrevivência’’? Fico pensando na geração de nossos pais e avós. Todos sobreviveram e viveram.... claro que os templos são outros, mas não deixa de ser interessante pensar em como ou em quem gere nossas vidas.
 Publicado em 30/06
GAD Jornal
Nanci da Cruz Mafalda - Analista Cultural

quarta-feira, 16 de maio de 2012

UMA MALA DE RODINHAS E A (IM) POSSIBILIDADE CRIAR RAÍZES E LAÇOS.


               Essa escrita vem de minhas angustias, juntadas as que leio e pesquiso, mas especialmente porque acredito que posso olhar pessoas especiais  e conseguir ver um pouquinho, muito pouquinho da essência que essas possuem, mas que são capazes de mobilizar em mim similitudes...e essa escrita foi inspirada em uma pessoa muito especial...

 Em uma de minhas colunas utilizei a metáfora da mochila de rodinhas para falar de educação, hoje utilizo de uma metáfora semelhante para falar de relações humanas: a mala de rodinhas, um artefato cultural, que se formos pensar é um dos mais significativos no mundo de hoje. Um objeto como esse que comumente temos  em casa, e é de rodinhas porque nos traz a comodidade  nas nossas idas e vindas porque às torna mais leves e a saúde física do nosso corpo agradece e todos sabemos disso . Mas,  há outra forma de pensar sobre os efeitos da praticidade da mala de rodinhas, pois afinal o mundo nunca foi de tanto movimento, nunca tivemos, tantas razões, motivos e necessidades que nos levam a nos locomover de um lado para outro:  a necessidade pela busca de meios de sobreviver ligadas a profissão  entre outras, é uma delas.
O mundo de hoje nos dá a vantagem da agilidade e rapidez através dos  meios de locomoção e de comunicação, pois afinal podemos estar  a milhares de quilômetros e nos comunicar em tempo real com nossa família, nossos filhos e amigos, mas percebo que talvez tudo isso não seja tão prático assim quando pensamos em relações humanas,  que como a milhares de anos exige proximidade física, exige o olhar, o abraço... e percebo portanto que  aquele registro de nascimento (outro artefato cultural)  que diz de onde somos, a que lugar pertencemos e determinante sobre onde ‘’devíamos’’ construir nossas raízes foi destituído do indicativo de onde as pessoas pertenciam e tornou-se   apenas  um documento de ordem burocrática.  Mas, o que quero destacar é que vejo pessoas  (especialmente a nossa geração nascida nos de 60 e 70) angustiadas, por vezes estressadas,  e o mais grave tornando suas relações (im)pessoais, senão descartáveis, ao menos quase,  como os produtos que hoje compramos e tem uma durabilidade reduzido, porque é preciso consumir mais, pois vivemos no mundo do consumo e não mais da produção.
 Para a geração mais nova  isso me parece mais assimilável. Mas não,  quando, por exemplo, vejo um pai, angustiado, porque precisa, ‘’necessita’’  distanciar-se  da filha, porque precisa buscar seu lugar, que não é onde nasceu, nem onde está agora, mas em função de buscar  um ‘’bom lugar’’ para sobreviver e viver mesmo em nome dessa filha que me pareceu muito amada...um lugar  ainda incerto!
                Portanto, não foi possível deixar de pensar na mala com rodinhas, que nos alivia o peso do corpo, faz bem a saúde, é cômoda e prática, mas que  aumenta o peso da alma e leva essa geração que transita entre modernidade (quando nossos pais nos ensinavam que tínhamos construir uma carreira, formar uma família, fixar-se...) e a pós-modernidade (momento que nos encontramos em crise, profissional, pessoal emocional...onde nada é fixo) ao limite extremo de nos  submeter  ao teste daquilo que nos faz essencialmente  humanos, os laços pessoais, o vínculo, o afeto, a proximidade, o amor.
 O mundo atual nos diz a todo o momento:  ‘’não crie raízes, pois não dá mais para sobreviver assim’’ e pensamos,  ‘’posso então criar laços’’...acredito sim, que possamos criar tudo isso em outras bases, mas até quando  estas bases resistirão, se um dia estamos aqui, outro ali, na eterna busca por sermos sujeitos do mundo, por  sobrevivermos, por  termos coisas...e a  minha/nossa geração fica a pergunta: quantas pessoas esquecemos pelo caminho? Quantas somos capazes de levar sem prejuízo, junto de nossa bagagem?  Quantas um dia voltaremos para buscar e não estarão mais onde pensemos ter deixado? Saberemos nós, viver de pequenos (grandes)  momentos de existência somente?  Saberemos partilhar ou construir histórias de vida não descartáveis? Ou  nos valerá sermos grandes sujeitos do mundo somente  com um amontoados de histórias para contar?
                Resposta? Sempre bem vindas....

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e Analista Cultural

domingo, 6 de maio de 2012

UMA ‘’CULTURA (IM)PRÓPRIA DE NÓS EDUCADORES’’ – IV SEMINÁRIO NACIONAL DE EDUCAÇÃO -


Nos dias 25, 26, 27 de abril passado tive a oportunidade de participar em três momentos distintos (como ouvinte, como oficineira e apresentando um artigo e pôster) do IV Seminário Nacional de Educação promovido pela Secretária Municipal de Educação e Cultura de Carazinho, que tinha como tema proposto para reflexão: ‘’ Tecnologias, Humanismo,  e Cooperação: as novas faces da Avaliação’’.
Tema sem dúvida pertinente ao momento que pelo qual passa e transpassa as discussões a respeito da educação no país ’, e são tantos mais os temas pertinentes às discussões sobre educação nos dias atuais. Importantes falas foram feitas, importantes trabalhos foram apresentados neste seminário, mas o que aqui quero me referir não é diretamente ao tema, nem aos palestrantes ou oficineiros que por passaram, mas o que esses sujeitos podiam ver do lugar de onde falavam: NÓS EDUCADORES, que lá estávamos (ou não – e esse ‘’não’’ entendido como uma opção por realmente não estar presente, como um ‘’não’’  que transparece na forma de reagir à um momento em somos ‘’convocados’’ a parar para repensar sobre a nossa prática pedagógica e aí sim temos a opção de ali estar comprometidamente ou  apenas de corpo presente sem generalizar é claro,   ).
Sei como professora pertencente ao um sistema de ensino que temos uma tendência natural a  reagir a tudo que nós é imposto por decreto (mas chamo atenção para o fato que também temos consciência de que nos propomos a fazer parte desse sistema. Estudamos, fizemos concurso...) e isso, é claro não acontece somente no campo da educação.
Michael  Fullan (especialista em gestão da educação), formulou o princípio básico de ‘’é impossível obrigar-se a fazer aquilo que realmente importa’’. E colocando-me no lugar de quem nos olha ( no caso os palestrantes) e observando as avaliações de corredores, do colega sentado ao lado ou a frente, nos corredores  pergunto-me: sendo EDUCADORES qual a postura que apresentamos nesses momentos? E qual postura como EDUCADORES nas nossas escolas ou outros ambientes pertencentes à mesma instância educativa nós temos? Sei que em oportunidades de discussão como esse têm momentos mais proveitosos outros menos, mas todos são passíveis de reflexão, creio ser esse o propósito, afinal. E aí reside uma questão intrigante, senão lamentável que se torna perceptível, pela insistência em posturas questionáveis que estão ficando tão arraigadas a imagem do EDUCADOR, que é uma cultura de reflexão e crítica de antemão, senão posteriormente baseados nos mesmos pressupostos, e o detalhe importante aqui é que são os mesmos pressupostos de muitos outros momentos iguais ou parecidos com esse. Então pergunto como fazer uma educação melhor em NOVOS tempos? Como sermos valorizados como profissionais de um NOVO tempo?  Se nos fechamos ao novo, se nos fechamos a possibilidade de ver no ‘’nem tão bom’’ ou no ‘’ruim’’ uma NOVA maneira própria de pensar? Será que somos capazes de RECONHECER e VER o bom? Que nos falta para quebrar essa CULTURA (im)própria que incide na identidade de nós EDUCADORES? Como superar  de modelos mentais subjetivos, as vezes, tão enraizados na nossa identidade de EDUCADORES? E como desmistificar  a imagem que infelizmente temos deixado transparecer diante da sociedade no sentido de quem somos, o que parecermos ser e o que devemos ser quando temos um papel social fundamental?
Para deixar um viés possível de pensarmos sobre isso, e a temática do seminário é rica para isso (Tecnologias, Humanismo, e Cooperação), cito (Cornelis, 1998), quando ele afirma “lidar com questões e situações novas com base em velhas ideias vai, com certeza produzir verdadeiras catástrofes em termos de aprendizagem”.
 Quem sabe devíamos não só olhar para quem nos fala, mas não seria  interessante olharmos para nos mesmos enquanto EDUCADORES.
Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e Analista Cultural