Essa escrita vem de minhas angustias, juntadas as que leio e pesquiso, mas especialmente porque acredito que posso olhar pessoas especiais e conseguir ver um pouquinho, muito pouquinho da essência que essas possuem, mas que são capazes de mobilizar em mim similitudes...e essa escrita foi inspirada em uma pessoa muito especial...
Em uma de minhas
colunas utilizei a metáfora da mochila de rodinhas para falar de educação, hoje
utilizo de uma metáfora semelhante para falar de relações humanas: a mala de
rodinhas, um artefato cultural, que se formos pensar é um dos mais significativos
no mundo de hoje. Um objeto como esse que comumente temos em casa, e é de rodinhas porque nos traz a comodidade nas nossas idas e vindas porque às torna mais
leves e a saúde física do nosso corpo agradece e todos sabemos disso . Mas, há outra forma de pensar sobre os efeitos da
praticidade da mala de rodinhas, pois afinal o mundo nunca foi de tanto
movimento, nunca tivemos, tantas razões, motivos e necessidades que nos levam a
nos locomover de um lado para outro: a
necessidade pela busca de meios de sobreviver ligadas a profissão entre outras, é uma delas.
O mundo de hoje nos dá a vantagem da agilidade e rapidez
através dos meios de locomoção e de
comunicação, pois afinal podemos estar a
milhares de quilômetros e nos comunicar em tempo real com nossa família, nossos
filhos e amigos, mas percebo que talvez tudo isso não seja tão prático assim
quando pensamos em relações humanas, que
como a milhares de anos exige proximidade física, exige o olhar, o abraço... e
percebo portanto que aquele registro de
nascimento (outro artefato cultural) que
diz de onde somos, a que lugar pertencemos e determinante sobre onde ‘’devíamos’’
construir nossas raízes foi destituído do indicativo de onde as pessoas
pertenciam e tornou-se apenas um documento de ordem burocrática. Mas, o que quero destacar é que vejo
pessoas (especialmente a nossa geração
nascida nos de 60 e 70) angustiadas, por vezes estressadas, e o mais grave tornando suas relações (im)pessoais,
senão descartáveis, ao menos quase, como
os produtos que hoje compramos e tem uma durabilidade reduzido, porque é
preciso consumir mais, pois vivemos no mundo do consumo e não mais da produção.
Para a
geração mais nova isso me parece mais
assimilável. Mas não, quando, por
exemplo, vejo um pai, angustiado, porque precisa, ‘’necessita’’ distanciar-se
da filha, porque precisa buscar seu lugar, que não é onde nasceu, nem
onde está agora, mas em função de buscar
um ‘’bom lugar’’ para sobreviver e viver mesmo em nome dessa filha que
me pareceu muito amada...um lugar ainda
incerto!
Portanto, não foi
possível deixar de pensar na mala com rodinhas, que nos alivia o peso do corpo,
faz bem a saúde, é cômoda e prática, mas que
aumenta o peso da alma e leva essa geração que transita entre
modernidade (quando nossos pais nos ensinavam que tínhamos construir uma
carreira, formar uma família, fixar-se...) e a pós-modernidade (momento que nos
encontramos em crise, profissional, pessoal emocional...onde nada é fixo) ao
limite extremo de nos submeter ao teste daquilo que nos faz
essencialmente humanos, os laços
pessoais, o vínculo, o afeto, a proximidade, o amor.
O mundo
atual nos diz a todo o momento: ‘’não
crie raízes, pois não dá mais para sobreviver assim’’ e pensamos, ‘’posso então criar laços’’...acredito sim,
que possamos criar tudo isso em outras bases, mas até quando estas bases resistirão, se um dia estamos aqui,
outro ali, na eterna busca por sermos sujeitos do mundo, por sobrevivermos, por termos coisas...e a minha/nossa geração fica a pergunta: quantas
pessoas esquecemos pelo caminho? Quantas somos capazes de levar sem prejuízo,
junto de nossa bagagem? Quantas um dia
voltaremos para buscar e não estarão mais onde pensemos ter deixado? Saberemos
nós, viver de pequenos (grandes)
momentos de existência somente?
Saberemos partilhar ou construir histórias de vida não descartáveis? Ou nos valerá sermos grandes sujeitos do mundo
somente com um amontoados de histórias
para contar?
Resposta? Sempre
bem vindas....
Nanci da Cruz Mafalda –
Pedagoga e Analista Cultural
Email: nda_cruz@hotmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário