quarta-feira, 16 de maio de 2012

UMA MALA DE RODINHAS E A (IM) POSSIBILIDADE CRIAR RAÍZES E LAÇOS.


               Essa escrita vem de minhas angustias, juntadas as que leio e pesquiso, mas especialmente porque acredito que posso olhar pessoas especiais  e conseguir ver um pouquinho, muito pouquinho da essência que essas possuem, mas que são capazes de mobilizar em mim similitudes...e essa escrita foi inspirada em uma pessoa muito especial...

 Em uma de minhas colunas utilizei a metáfora da mochila de rodinhas para falar de educação, hoje utilizo de uma metáfora semelhante para falar de relações humanas: a mala de rodinhas, um artefato cultural, que se formos pensar é um dos mais significativos no mundo de hoje. Um objeto como esse que comumente temos  em casa, e é de rodinhas porque nos traz a comodidade  nas nossas idas e vindas porque às torna mais leves e a saúde física do nosso corpo agradece e todos sabemos disso . Mas,  há outra forma de pensar sobre os efeitos da praticidade da mala de rodinhas, pois afinal o mundo nunca foi de tanto movimento, nunca tivemos, tantas razões, motivos e necessidades que nos levam a nos locomover de um lado para outro:  a necessidade pela busca de meios de sobreviver ligadas a profissão  entre outras, é uma delas.
O mundo de hoje nos dá a vantagem da agilidade e rapidez através dos  meios de locomoção e de comunicação, pois afinal podemos estar  a milhares de quilômetros e nos comunicar em tempo real com nossa família, nossos filhos e amigos, mas percebo que talvez tudo isso não seja tão prático assim quando pensamos em relações humanas,  que como a milhares de anos exige proximidade física, exige o olhar, o abraço... e percebo portanto que  aquele registro de nascimento (outro artefato cultural)  que diz de onde somos, a que lugar pertencemos e determinante sobre onde ‘’devíamos’’ construir nossas raízes foi destituído do indicativo de onde as pessoas pertenciam e tornou-se   apenas  um documento de ordem burocrática.  Mas, o que quero destacar é que vejo pessoas  (especialmente a nossa geração nascida nos de 60 e 70) angustiadas, por vezes estressadas,  e o mais grave tornando suas relações (im)pessoais, senão descartáveis, ao menos quase,  como os produtos que hoje compramos e tem uma durabilidade reduzido, porque é preciso consumir mais, pois vivemos no mundo do consumo e não mais da produção.
 Para a geração mais nova  isso me parece mais assimilável. Mas não,  quando, por exemplo, vejo um pai, angustiado, porque precisa, ‘’necessita’’  distanciar-se  da filha, porque precisa buscar seu lugar, que não é onde nasceu, nem onde está agora, mas em função de buscar  um ‘’bom lugar’’ para sobreviver e viver mesmo em nome dessa filha que me pareceu muito amada...um lugar  ainda incerto!
                Portanto, não foi possível deixar de pensar na mala com rodinhas, que nos alivia o peso do corpo, faz bem a saúde, é cômoda e prática, mas que  aumenta o peso da alma e leva essa geração que transita entre modernidade (quando nossos pais nos ensinavam que tínhamos construir uma carreira, formar uma família, fixar-se...) e a pós-modernidade (momento que nos encontramos em crise, profissional, pessoal emocional...onde nada é fixo) ao limite extremo de nos  submeter  ao teste daquilo que nos faz essencialmente  humanos, os laços pessoais, o vínculo, o afeto, a proximidade, o amor.
 O mundo atual nos diz a todo o momento:  ‘’não crie raízes, pois não dá mais para sobreviver assim’’ e pensamos,  ‘’posso então criar laços’’...acredito sim, que possamos criar tudo isso em outras bases, mas até quando  estas bases resistirão, se um dia estamos aqui, outro ali, na eterna busca por sermos sujeitos do mundo, por  sobrevivermos, por  termos coisas...e a  minha/nossa geração fica a pergunta: quantas pessoas esquecemos pelo caminho? Quantas somos capazes de levar sem prejuízo, junto de nossa bagagem?  Quantas um dia voltaremos para buscar e não estarão mais onde pensemos ter deixado? Saberemos nós, viver de pequenos (grandes)  momentos de existência somente?  Saberemos partilhar ou construir histórias de vida não descartáveis? Ou  nos valerá sermos grandes sujeitos do mundo somente  com um amontoados de histórias para contar?
                Resposta? Sempre bem vindas....

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e Analista Cultural

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