quinta-feira, 14 de junho de 2012

AMOR LÍQUIDO E LAÇOS HUMANOS


Dia dos namorados, a culminância de inúmeros dias em que a cidade esteve quase ‘’vestida’’ pelo vermelho dos corações e  rosas  adornando vitrinas que exibem os mais diversos produtos para os mais diversos gostos e adequados aos mais diversos ‘’tipos de namoradas e namorados’’ . Dia de buquês de flores desfilando em braços de gente com olhar de que estou amando ou sou amado, ou de entregadores que colhem a emoção do momento da entrega de flores ou de um presente. Dia também, de pacotinhos coloridos nas mãos e  de  passos apressados para um compromisso,  restaurantes na penumbra de luz de velas...E dando uma volta a noite pela cidade, tem-se a impressão de que não existe  gente só, nem solidão, e me pergunto por onde anda o restante de toda gente quem sempre se vê,  não necessariamente aos pares de  mãos dadas? Sendo felizes vendo um filme, uma novela,  cozinhando? Ou escondendo a solidão (diante dessa possibilidade parece que se alguém  sair sozinho numa noite dessas é um alienígena perdido)?
E de tudo que vejo, imagino e tento, quase que invariavelmente em vão, buscar nos gestos, olhares dos ‘’namorados’’ e dos que a primeira vista não os tem,  algumas respostas que acabam virando somente mais perguntas,  sobre algo talvez menos alegórico, e talvez menos enfeitado de laços, fitas, cores,  flores e corações: laços humanos no mundo de hoje.
E isso me faz lembrar um sociólogo chamado Zygmund Baumann que tem entre várias obras, escreveu ‘’amor líquido’’, onde usa a metáfora da água, que é contornável, flexível, absorvível, adaptável ao tamanho de qualquer recipiente, contorna leitos dos rios, desvia rochas, ou as encobre conforme o caso, para pensar nos relacionamentos, não só as relações amorosas, mas também as familiares e de amizade. Ele nos provoca a pensar como isso se dá num tempo em que estas relações se tornam cada vez mais flexíveis, que geram inseguranças muito maiores, uma vez que estamos  dando prioridades a relacionamentos que ele chama de ‘’redes’’ os quais podem ser tecidos ou desmanchados com facilidade – não sabemos mais manter relacionamentos a longo prazo: vivemos a misteriosa fragilidade dos vínculos humanos. O sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes de apertar laços e ao mesmo tempo  mantê-los frouxos...porque seguramente não suportamos viver sozinhos, ao tempo em que a vida pode nos oferecer algo melhor do que já temos...
Interessante pensar quando Baumann, nos diz que existem “relacionamentos de bolso” ( posso dispor quando necessário e guardar depois), relacionamentos tipo vitamina C ( em altas doses podem fazer mal a saúde), os relacionamentos CSSs – casais semi-separados ( os que romperam a bolha sufocante do dos casais),  relações como automóveis ( devem passar por  revisões regulares para termos certezas que  vão continuar funcionando) ou os ‘’relacionamentos de ficantes’’ (descartáveis e não exigem investimento pessoal e emocional) ou ainda ‘’relacionamento ficante-fixo’’ assemelha-se ao relaxamento de bolso...
Creio que temos pensado o amor e os laços humanos, por incrível que possa parecer, matematicamente, ou seja, custo/benefício, não de mãos dadas, mas sim o que cada um pode investir, ganhar ou perder para si.
Daí pergunto-me para qual tipo de relacionamento vão o investimento emocional  os buquês, pacotinhos coloridos, corações, jantares a luz de velas, declarações de amor?  Mas deixo uma frase de Baumann quando fala no amor e no desejo: ‘’ Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aniquilação deste e se realiza na durabilidade.  Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua’’.
Talvez  Baumann nos deixe menos  ansiosos, menos confusos ou com menos  medo de arriscar a estreitar laços. 

PUBLICADO NO GAD NOTICÍAS em 14/06/2012