quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ESTUDOS CULTURAIS - P/ PENSAR E DIVERTIR

Narrativa, endereçamento, mídia, linguagem, representação... etc... etc...e o que mais for possível pensar ...só pra rir um poquinho...

Como a  história da Chapeuzinho Vermelho  seria  veiculada pela imprensa brasileira? 
*Jornal Nacional* 

(William Bonner)
: 'Boa noite. Uma menina chegou a ser devorada por um lobo na noite de ontem.'         
(Fátima Bernardes)
: '.mas a atuação de um caçador evitou a tragédia.'   

*Programa da Hebe**
 


".Que gracinha, gente! Vocês não vão acreditar, mas essa menina
linda aqui foi retirada viva da barriga de um lobo, não é mesmo?"  

*Cidade Alerta* 


".Onde é que a gente vai parar, cadê as autoridades? Cadê as autoridades? A menina ia pra casa da vovozinha a pé! Não tem transporte público! Não tem transporte público! E foi devorada viva.
Um lobo, um lobo safado. Põe na tela, primo! Porque eu falo mesmo, não tenho medo de lobo, não tenho medo de lobo, não!" 


*Superpop*


"Geeente! Eu tô aqui com a ex-mulher do lenhador e ela diz que ele é alcoólatra, agressivo e que não paga pensão aos filhos há mais de um ano. Abafa o caso!"     
*Globo Repórter* 


"Tara? Fetiche? Violência? O que leva alguém a comer, na mesma noite, uma idosa e uma adolescente?
O Globo Repórter conversou com psicólogos, antropólogos e com amigos e parentes do Lobo, em busca da resposta.
E uma revelação: casos semelhantes acontecem dentro dos próprios lares das vítimas, que silenciam por medo. Hoje, no Globo Repórter.."    

*Discovery Channel* 


"Vamos determinar se é possível uma pessoa ser engolida viva e sobreviver."

*Revista Veja*


"Lula sabia das intenções do Lobo e se calou para não prejudicar a campanha da Dilma."  

*Revista Cláudia* 


"Como chegar à casa da vovozinha sem se deixar enganar pelos lobos no caminho."         
*Revista Nova* 


"Dez maneiras de levar um lobo à loucura, na cama!"  

*Revista Isto É*


Gravações revelam que lobo foi assessor de político influente.

*Revista Playboy*


(Ensaio fotográfico com Chapeuzinho no mês seguinte)
: "Veja o que só o lobo viu."  

*Revista Vip*


"As 100 mais sexies - Desvendamos a adolescente mais gostosa do Brasil!"

*Revista G Magazine*


(Ensaio com o lenhador)
 "O lenhador mostra o machado."  

*Revista Caras*


Na banheira de hidromassagem, Chapeuzinho fala a CARAS: "Até ser devorada, eu não dava valor pra muitas coisas na vida. Hoje, sou outra pessoa."  

*Revista Superinteressante*


"Lobo Mau: mito ou verdade?"

*Revista Tititi*


"Lenhador e Chapeuzinho flagrados em clima romântico em jantar no Rio."

*Folha de São Paulo*


"Lobo que devorou menina é do Comite de Campanha da Dilma"

*O Estado de São Paulo*


"Lobo que devorou menina seria filiado ao PT."

*O Globo*


"Petrobrás apóia ONG do lenhador ligado ao PT, que matou um lobo para salvar menor de idade carente."

*O Povo* 


"Sangue e tragédia na casa da vovó."  

*O Dia*


"Lenhador desempregado tem dia de herói."

*Extra*


"Promoção do mês: junte 20 selos, mais 19,90 e troque por uma capa vermelha igual a da Chapeuzinho!"    

*Zero hora*


"Lenhador passou o rodo e mandou lobo pedófilo pro saco!"

*Capricho* 
Teste: "Seu par ideal é lobo ou lenhador?"

Com com o aporte nos Estudos Culturais o que podemos pensar sobre essa imagem?

A FEBRE DA FAMÍLIA FELIZ


A FEBRE DA FAMÍLIA FELIZ

Um dos artefatos culturais que tem feito o maior sucesso no Brasil inteiro são os famosos  adesivos Família Feliz. Os adesivos foram criados por Germano Spadini, designer formado na universidade Anhembi Morumbi em São Paulo, em 2005. Ele iniciou representando a sua própria família e aos poucos familiares e amigos aderiram à ideia, e logo a Família Feliz virou sensação.  No trânsito é possível ver carros adesivados com modelos de famílias dos mais diversos tipos: pais, avôs, avós, filhos, animais de estimação e até seguranças. Mas por que a Família Feliz faz tanto sucesso?
            Segundo a doutora em psicologia, especialista em família Ceneide Cerveny (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/PUC-SP), acredita que o principal motivo para se aderir à moda é o orgulho de exibir os familiares. Segundo ela, ‘’pesquisas mostram que o brasileiro valoriza muito pertencer a uma família, a um lar. Esta foi a forma encontrada de se mostrar isso. Outra razão seria a busca por diferenciação que a sociedade demonstra cada vez mais. Muitas pessoas precisam achar uma maneira de ser diferente e personalizar o carro é um caminho.”
Para a psicóloga e terapeuta familiar Marina Vasconcellos (UNIFESP/SP) as crianças influenciaram bastante o sucesso do produto. “Os adesivos são bonitinhos e os filhos adoram ver seus pais, irmãos e bichos de estimação. Acaba virando uma grande diversão para a família.” Outra razão apontada pela psicóloga é a exteriorização do afeto. “É uma combinação de fatores: está moda, é divertido e exibe o carinho pelas pessoas da família de uma forma positiva”, completa.
No entanto, nem todos acham que essa moda é pura inocência e imbuída de puro sentimento afetivo. Conforme, a psicóloga, psicoterapeuta  Mariah Bressani (Universidade de São Marcos/SP) afirma que o sucesso da atitude de estampar uma representação da própria felicidade familiar no automóvel demonstra o nível de exibicionismo dos tempos atuais. Os adesivos seriam uma consequência do movimento já visto nas redes sociais. “As pessoas colocam o que estão fazendo em suas páginas em tempo real. O carro é mais uma maneira de mostrar para o mundo algo que deveria ser pessoal’’
Sobre todos os pontos de vista acima mencionados há algo que devemos nos dar conta, para além de colocar em visibilidade a vida privada,   que diz respeito a questão de segurança. Ao ilustrarmos nossa família, tal como ela é, podemos estar expondo seus hábitos, rotina, nível social e econômico ao conhecimento de pessoas mal-intencionadas. Os órgãos de segurança têm feito alertas importantes nesse sentido, pois as imagens adesivadas dão conta do perfil da família, o que pode facilitar assaltos, sequestros, roubos, extorsões. 
Enfim, amemos nossas famílias, gritemos isso ao mundo, especialmente cochichemos isso todos os dias aos ouvidos dos nossos, pais, filhos, avós, amigos, maridos, namorado, namoridos. Desenhos para eles...usemos da criatividade para falar de amor, sentimento aliás, que anda tão carente  de ser demonstrado,  propagado e vivido, mas é preciso ficar atento para como diz meu pai para que ‘’o tiro na saia pela culatra’’.

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e Analista Cultural
Coluna publicada no GAD Jornal – Carazinho -RS
Tiragem de 10 mil exemplares

ISSO É ‘’COISA DE CRIANÇA’’ OU ‘’COISA DE GENTE GRANDE’’??

ISSO É ‘’COISA DE CRIANÇA’’ OU ‘’COISA DE GENTE GRANDE’’??

 Nestes dias em se aproxima o dia das crianças (12 de outubro), basta, sem muito esforço, prestarmos atenção aos comerciais de TV, as capas de revistas, as vitrinas e aos ‘’folhetos’’ de propagandas das lojas, na imagem dos perfis (dos adultos) em sites de relacionamento, nos outdoors, aos eventos festivos que se pré-anunciam, nas atividades propostas pelas escolas e outras instituições...Somos invadimos, capturados  por esse mundo infantil! Somos incitados por essas estratégias, diga-se de passagem, mercadológicas, a buscar a criança em nós.
Nem sempre a criança e a infância tiveram tanto espaço na sociedade como hoje. Nem sempre, os adultos davam ouvidos as ‘‘vontades’’ das crianças. Isso porque a criança precisava crescer depressa e logo se tornar adulta, fazer parte do mundo dos adultos.  Isso é aquilo que nós, pedagogos, nos referimos, como ao tempo em que as crianças eram vistas como adultos em miniatura, desde seu modo de vestir, trabalhar, estudar, enfim, (con)viver no mundo.
Isso começa a mudar no século XVIII, devido às mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais, a partir de onde o universo infantil passa a ser marcado pela ternura, pela inocência, pela ingenuidade, pela fragilidade que comove e faz pensar que essa criança está em formação (é um ser incompleto) e precisa ser disciplinada e educada. Aqui o mundo adulto se separa do mundo infantil. A expressão ‘’isso é coisa de criança’’, é a prova disso ( estudar, brincar...)
E hoje? Bom, nessa sociedade, que muito estudiosos, definem como tempos ‘’embaralhados’’, que nós, definimos como uma sociedade  que está em crise de instituições e valores, já não é certo que isso ou aquilo seja definido como ‘’coisa de criança’’ ou como ‘’coisa de gente grande’’. Exemplos disso? Bom, é comum, vermos crianças tomando decisões como adultos e adultos em festas à fantasia como crianças, entre outras tantas coisas, se pararmos um pouco para pensar.
O importante, é que crianças e adultos, nesse turbilhão de apelos, de modos de ser, de modos de nos vermos como adultos, dos modos como vemos nossas crianças...CONSUMIMOS! Pensando assim, talvez a única ‘’coisa’’ que seja tanto de adulto quanto de criança, seja, a vontade de comprar, o último lançamento de brinquedo ou a último lançamento de celular, de computador, de roupa, de sapatos...
FELIZ DIA CRIANÇAS! E talvez valha, a advertência sobre qual a criança, que de fato, procuramos e encontramos dentro de nós...e sobre qual criança vemos em nossos filhos, alunos, afilhados, sobrinhos...

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e analista cultural
Coluna publicada no GAD Jornal – Carazinho
Tiragem de 10 mil exemplares
17ª SEARA DA CANÇÃO  -  MAIS UMA VEZ  O NATIVISMO NO PALCO

O nativismo gaúcho é um movimento cultural iniciado no âmbito musical que ganhou grande força no cenário estadual, a partir da década de 1970,  momento em que o país era acometido pelas atrocidades impostas pela ditadura militar e marcado por intensos enfrentamentos políticos e sociais. E é justamente na esfera cultural, através da música, que surgiu uma das mais importantes formas de resistência a esse contexto. Como meio de protesto, denúncia e combate à massificação da música estrangeira, surgiu, no Brasil,  o movimento da Música Popular Brasileira (MPB) ao mesmo tempo que se ampliou o espaço para a música  de raízes regionais.  Assim, no Rio Grande do Sul, esse movimento desponta e tem sua expressividade nos festivais de música nativista.
O primeiro,  do chamado ‘’ciclo dos festivais’’, nasce no ano de 1971, na cidade de Uruguaiana: a Califórnia da Canção Nativa. A música nativista, através de sua inovação estética, assumiu um caráter crítico- social e político, em plena ditadura militar. Em geral, as letras das músicas falavam, entre outros temas, do êxodo rural, da agricultura, da pecuária, das questões latino-americanas, da ecologia, dos costumes rurais e também urbanos
Derivada desse contexto nasceu a SEARA DA CANÇAO GAÚCHA.  Em 1979, a rádio Carazinho colocava no ar o programa de rádio ‘’Raízes do Sul’’. Inspirado por esse programa, que tinha como objetivo divulgar a música nativista, que Aylton Magalhães, então seu apresentador, idealizou, juntamente com Setembrino Franco e outros colaboradores,  a SEARA DA CANÇÃO que aconteceu em 1981.
Até então, eram poucos os festivais no Rio Grande do Sul. Além da pioneira Califórnia da Canção Nativa, existiam apenas a Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria e a Coxilha Nativista de Cruz Alta. Enquanto esses festivais tinham suas temáticas mais centradas nas tradições e costumes da fronteira, a SEARA abriu caminhos para a música serrana e para cantar as ‘’coisas’’ do planalto médio, resgatando temas regionais e locais e revalorizando aspectos das identidades locais. O próprio termo ‘’SEARA” significa ‘’campos cultivados com cereais’’,  tendo o propósito de identificar o festival com a vocação econômica do município e região: a agricultura. Já o termo ‘’GAÚCHA’’ se relaciona ao fato de o festival ter criado, além das tradicionais categorias Galponeira e Nativista, a categoria Especial que tinha como objetivo ampliar a valorização das  tradições e costumes da vida rural.
Uma “”SEARA GAÜCHA” fez com que as polêmicas comuns entre nativistas e tradicionalistas, comuns na época fossem amenizados, mostrando ser possível espaço e diálogo para os dois movimentos. O primeiro que acontecia nos palcos e o segundo que tradicionalmente acontecia dentro dos Centros de Tradições Gaúchas – CTGs, o que não impedia que ambos os ambientes fossem compartilhados.
Em suas duas primeiras edições, a SEARA DA CANÇÃO foi promovida pela Rádio Carazinho  e muitos colaboradores. Já consolidada e conquistando a simpatia da crítica especializada, a SEARA já  era reconhecida como um dos melhores festivais de música nativista do estado.  Foram realizadas consecutivamente 11 edições da SEARA  até o ano de 1991, quando foi realizada a SEARA DAS SEARAS.. Durante o mesmo festival também aconteceu a SEARINHA DA CANÇÃO.  Nos mesmos moldes, durante a 12ª  SEARA, em 1992, foi realizada a SEARINHA DA CANÇÃO. A 13ª SEARA aconteceu em 1994.  Depois da 15ª Seara o festival somente retornou no ano de 2010 com a 16ª edição. Muitos talentos musicais nasceram nos palcos dos festivais  nativistas, especialmente da Seara da Canção. Nomes como::  Angelino Rogério, Antonio Augusto  Fagundes, Aparício Silva Rillo, Ayrton Pimentel,  Bagre Fagundes, Borguetinho, Carlos Catuípe, Carlos Magrão,  Daniel Torres, Cenair Maicá, Cezar Passarinho,  Dante Ramon Ledesma,  Delci Taborda, Délcio Tavares, Dilan Camargo, Dorotéo Fagundes, Elton Saldanha, Eraci Rocha, Eurides Nunes, Fátima Gimenez, Ivo Ladislau, Jaime Brum, Jaime Caetano Braun, João Almeida Neto, João Kadela e Grupo Kanil, José Fogaça, Lucio Yanel, Joca Martins, Luiz Carlos Borges,  Luiz Coronel, Nilo Bairros de Brum,  Porca Véia,  Sergio Napp, Telmo de Lima Freitas e  Rui Biriva, que nesta 17ª Seara recebe homenagem especial pelo seu legado entre outros
            Depois de um certo declínio, o nativismo retorna aos palcos chegando aos nossos dias,  constituindo um dos muitos modos de ser gaúcho. Reconfigurado, incorporando ritmos, instrumentos, indumentárias,  diferentes temáticas em suas letras, envolvendo crianças, jovens e adultos, a 17ª edição da SEARA DA CANÇÃO vem aí neste próximo final de semana  integrando a comunidade de Carazinho, poetas, músicos, intérpretes, críticos e imprensa em geral e sem dúvida  recolocando Carazinho novamente no  cenário dos Festivais Nativistas do Estado.

Nanci da Cruz Mafalda
Pedagoga e Analista Cultural
nda_cruz@hotmail.com

 Coluna publicada no GAD Jornal - Carazinho - RS
Tiragem Inicia l10 mil exemplares de dezesseis páginas por mês (colorido)
Email:gadjornal@hotmail.com



A CULTURA TRADICIONALISTA E A IDENTIDADE DO GAÚCHO.

A CULTURA TRADICIONALISTA E A IDENTIDADE DO GAÚCHO.

Na semana em que se abrem as comemorações da semana farroupilha, inevitavelmente somos levado a pensar, mesmo não fazendo parte de um Centro de Tradições Gaúchas - CTG, em nos nossos costumes e práticas cotidianas que nos identificam como gaúchos  dentro do nosso estado, pelo Brasil a fora  e até mesmo no exterior. Uma das formas pelas quais as identidades (ser e dizer-se gaúcho) estabelecem suas reivindicações é por meio do apelo a antecedentes históricos.
Sendo assim, o sentido dos hábitos e costumes do cotidiano da nossa cultura remontam e são construídos pela própria cultura que não é separada das condições históricas, econômicas, políticas e da organização das sociedades. Cabendo ainda salientar que as identidades não são fixas, mutáveis e são perfeitamente negociadas, principalmente em tempos de pós-modernidade, mesmo  dentro de um movimento considerado fechado em suas regras, preceitos e costumes, como o tradicionalismo criado por Paixão Côrtes através do Movimento de Tradições Gaúchas – MTG, em 1967.
Um exemplo disso é a fala da senhora Gilda Galiassi, Coordenadora da 7ª Região  Tradicionalista, quando nesta semana, em entrevista a RBS TV falava sobre a programação da semana farroupilha. Na sua fala,  dois aspectos me chamaram a atenção, a sua referência sobre como o movimento tradicionalista representa para seus membros um ‘’modo de vida’’, uma  ‘’filosofia’’ e de como esse movimento precisou em virtude das contingências invadir o urbano.
Mas retomando a questão de que as identidades tem seu apelo aos antecedentes históricos, e que esse é um efeito da cultura, mas de uma cultura pensada como práticas produzidas dentro de um contexto mais amplo já falado, podemos analisar o surgimento do termo  “”gaúcho’’, nome pelo qual é conhecido o homem do campo na região dos pampas da Argentina, Uruguai e do Rio Grande do Sul e, por extensão, quem nasce neste estado brasileiro.
Originalmente sabemos que, o termo ‘’gaúcho’’ foi aplicado em sentido pejorativo (como sinônimo de ladrão de gado e vadio), aos mestiços e índios, espanhóis e português que naquela região, ainda selvagem, viviam de prear o gado, fugindo dos povoamentos espanhóis, se espalhava e reproduzia livremente pelas pastagens naturais. Igualmente livre, sem patrão e sem lei, o gaúcho tornou-se hábil cavaleiro, manejador do laço e da boleadeira.
No século XVIII, foi o gaúcho brasileiro um instrumento de fixação portuguesa no Brasil meridional e por essas circunstâncias econômicas, políticas  e sociais cambiantes que a representação do sujeito ‘’gaúcho’’ altera-se do termo pejorativo ao ‘’herói’’, corajoso, hospitaleiro, honrado, cavalheiro, ‘’apegado aos costumes’’ protetor das fronteiras do sul Brasil. Assim, as qualidades que hoje nos desfiles e festividades farroupilhas tanto enaltecemos, lembramos, reafirmamos dessa categoria de sujeito provém dessas contingências produzidas na cultura.
Interessante ressaltar que mesmo não definindo-se como tradicionalistas, temos nossas práticas cotidianas ligadas a nossa caminhada cultural: o churrasco do domingo, o chimarrão, o carreteiro, termos como “’tchê’’, guria, ‘’trigal’’...entre tantas outras práticas.
            Em síntese, o que se ressalta aqui é que mesmo não sendo tradicionalistas por opção ao movimento, somos gaúchos por condições  diversas, mas acima de tudo somos frutos de uma cultura secular, composta por hibridações (mistura de culturas advindas de países ibéricos,  - Portugal e Espanha – e muito fortemente pela prática culturais indígenas).

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e analista cultural

OS MONUMENTOS E A CIDADE I

OS MONUMENTOS E A CIDADE I

Vendo ser revitalizado o monumento  ‘’O Bombeador’’ um dos símbolos do passado histórico da cidade  localizado na Praça das Bandeiras em frente a Estação Rodoviária, me ocorreu  a pergunta: por que ele  é tão importante? Bom,  embora a   resposta  pareça  óbvia e já dada anteriormente nessa frase ,  convido os leitores a pensarem além do fato desse artefato cultural ser  importante porque simboliza uma trajetória histórica do surgimento de uma comunidade, o que já não é  pouco.   E pensando no monumento ‘’ O Bombeador’’  pensemos sobre os diversos monumentos espalhados por nossa cidade, como os existentes na Praça Albino Hilebrandt, nos acessos á cidade e outros pontos mais. E podemos nos perguntar então, para que servem, ou qual o sentido de construirmos tantos monumentos?
            Um bom começo para pensarmos sobre isso é buscar no bom e velho dicionário o que significa a palavra monumento. Segundo o dicionário Houaiss (2001), esse termo data do século XIII e provém do latim “monuméntum, moniméntum e moliméntum” – que significa  trazer  à memória, lembrança e penhor de amor, o que faz lembrar um morto, túmulo, estátua’.
            Essa origem nos remete a compreender  que esse termo está vinculado  a um propósito eminentemente afetivo.  Esse conceito, aliás, é o que faz com que os monumentos sejam compreendidos  por patrimônio urbano.
Em um sentido mais antigo e dito talvez verdadeiramente original, é possível entender um monumento como   uma obra criada pela mão do homem e edificada com o propósito preciso de conservar sempre presente e vivo na consciência das gerações futuras a lembrança de uma ação ou do destino construído por um lugar, uma pessoa, ou as duas coisas juntas. No entanto, Alois Riegl (1984)  historiador de arte,  austríaco, trás uma concepção que julgo, muito interessante e atual de monumento quando afirma:  “Não é a destinação original que confere a essas obras a significação de monumentos; somos nós, sujeitos modernos, que as atribuímos a eles``. Ou seja, sendo intencional  ou não, os monumentos  têm um valor de  rememoração, de tocar a memória coletiva , pela emoção, fazendo disso uma memória viva.
Seguindo o pensamento de Riegl, não apenas o monumento  trabalha e  mobiliza a memória pela mediação da afetividade, de forma que lembre o passado fazendo-o vibrar como se fosse presente,  mas esse passado invocado, convocado, de certa forma encantado, não é um passado qualquer. Ele é localizado e selecionado para fins vitais, na medida em que pode, de forma direta, contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade étnica ou religiosa, nacional, tribal ou familiar.
Isso pode ser facilitado porque diferentemente dos museus que ‘’capturam’’ os objetos entre quatro paredes, os monumentos são abertos à dinâmica urbana, facilitando que a memória interaja e seja revitalizada graças a movimentação da própria cidade.
Esses, portanto podem ser alguns dos sentidos que explica ser o monumento ‘’O Bombeador’’ símbolo de Carazinho, pela história por ele representada, e de termos diversas outras manifestações de memória edificadas pela cidade, com as quais devíamos interagir e preservar.

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e analista cultural
Coluna publicada no GAD Jornal - Carazinho - RS
 Tiragem Inicia l10 mil exemplares de dezesseis páginas por mês (colorido)
Email:gadjornal@hotmail.com

CULTURA: UMA CONVERSA SOBRE NOSSO DIA-A-DIA

CULTURA: UMA  CONVERSA SOBRE NOSSO DIA-A-DIA

                Com satisfação  que recebi  e aceitei o convite para escrever como colunista para ``conversarmos`` sobre cultura , neste jornal que corajosamente, se lança ao desafio de levar informação, de tornar visível,  apreciável e opinável as informações e acontecimentos da comunidade local  e  regional, com a diferença a meu ver, já pela sua primeira edição,  que se trata de informar e levar  a conhecimento  assuntos do cotidiano vivido, no  bairro, na cidade, na região, que se observarmos pelas matérias já publicadas estão conectados com o que acontece no mundo e nem poderia ser diferente.
 Na sociedade que vivemos, mesmo no sofá da nossa sala, na nossa vida de cuidar da casa e dos filhos, de trabalhar fora (ou as duas coisas),  nos nossos relacionamentos familiares ou afetivos somos capturados, pelas ``coisas`` do mundo que nos chegam muito mais que a galope, numa velocidade intensa, através da TV, do celular,  deste (jornal)  e outros meios de comunicação.
Pois bem, isso se chama CULTURA!!! Cultura hoje, já está longe de ser entendida somente como tradições e valores de uma  sociedade, de uma comunidade, de uma família ou mesmo, daqueles valores que temos,  enquanto sujeitos. Portanto, não dizemos mais, que uma pessoa tem mais ou menos cultura que outra, ou que só tem cultura  quem ouve música clássica, tem mais estudo, é conhecedor de obras de arte de artistas famosos, o que se denominava alta cultura, em detrimento do que se dizia cultura popular ou baixa cultura, ou seja, a quem vivia ou gostava de coisas diferentes disso, como a novela, o programa de auditório, big brother (reality shows) o artesanato, o grafiti (arte de rua), a dança de rua , o funk, o rap, etc...
Hoje, essa diferença já não é o que importa. Hoje,  cultura está na nossa cabeça, ou seja, está no modo como entendemos o que vemos e vivemos, e com quem dividimos e compartilhamos  esses entendimentos. Isso acontece quando fazemos parte de mesma religião,  do clube de mães, do mesmo grupo de amigos, do mesmo grupo de  estudo, do mesmo grupo de ``baladas`` ou de uma mesma ``tribo``. Enfim, onde circulam interesses  e valores comuns, ou como dizemos antes, onde circulam os mesmo modos de fazer e as mesmas práticas.
Portanto é, a partir  dessa perspectiva que essa coluna pretende falar sobre cultura e elencar assuntos sobre o que acontece na comunidade, na região e no mundo.
Até breve.
Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e analista cultural
Coluna publicada no Jornal GAD Notícias - Carazinho - Tiragem Inicial
10 mil exemplares de dezesseis páginas por mês (colorido). 
E-mail
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