quarta-feira, 2 de novembro de 2011

17ª SEARA DA CANÇÃO  -  MAIS UMA VEZ  O NATIVISMO NO PALCO

O nativismo gaúcho é um movimento cultural iniciado no âmbito musical que ganhou grande força no cenário estadual, a partir da década de 1970,  momento em que o país era acometido pelas atrocidades impostas pela ditadura militar e marcado por intensos enfrentamentos políticos e sociais. E é justamente na esfera cultural, através da música, que surgiu uma das mais importantes formas de resistência a esse contexto. Como meio de protesto, denúncia e combate à massificação da música estrangeira, surgiu, no Brasil,  o movimento da Música Popular Brasileira (MPB) ao mesmo tempo que se ampliou o espaço para a música  de raízes regionais.  Assim, no Rio Grande do Sul, esse movimento desponta e tem sua expressividade nos festivais de música nativista.
O primeiro,  do chamado ‘’ciclo dos festivais’’, nasce no ano de 1971, na cidade de Uruguaiana: a Califórnia da Canção Nativa. A música nativista, através de sua inovação estética, assumiu um caráter crítico- social e político, em plena ditadura militar. Em geral, as letras das músicas falavam, entre outros temas, do êxodo rural, da agricultura, da pecuária, das questões latino-americanas, da ecologia, dos costumes rurais e também urbanos
Derivada desse contexto nasceu a SEARA DA CANÇAO GAÚCHA.  Em 1979, a rádio Carazinho colocava no ar o programa de rádio ‘’Raízes do Sul’’. Inspirado por esse programa, que tinha como objetivo divulgar a música nativista, que Aylton Magalhães, então seu apresentador, idealizou, juntamente com Setembrino Franco e outros colaboradores,  a SEARA DA CANÇÃO que aconteceu em 1981.
Até então, eram poucos os festivais no Rio Grande do Sul. Além da pioneira Califórnia da Canção Nativa, existiam apenas a Tertúlia Musical Nativista de Santa Maria e a Coxilha Nativista de Cruz Alta. Enquanto esses festivais tinham suas temáticas mais centradas nas tradições e costumes da fronteira, a SEARA abriu caminhos para a música serrana e para cantar as ‘’coisas’’ do planalto médio, resgatando temas regionais e locais e revalorizando aspectos das identidades locais. O próprio termo ‘’SEARA” significa ‘’campos cultivados com cereais’’,  tendo o propósito de identificar o festival com a vocação econômica do município e região: a agricultura. Já o termo ‘’GAÚCHA’’ se relaciona ao fato de o festival ter criado, além das tradicionais categorias Galponeira e Nativista, a categoria Especial que tinha como objetivo ampliar a valorização das  tradições e costumes da vida rural.
Uma “”SEARA GAÜCHA” fez com que as polêmicas comuns entre nativistas e tradicionalistas, comuns na época fossem amenizados, mostrando ser possível espaço e diálogo para os dois movimentos. O primeiro que acontecia nos palcos e o segundo que tradicionalmente acontecia dentro dos Centros de Tradições Gaúchas – CTGs, o que não impedia que ambos os ambientes fossem compartilhados.
Em suas duas primeiras edições, a SEARA DA CANÇÃO foi promovida pela Rádio Carazinho  e muitos colaboradores. Já consolidada e conquistando a simpatia da crítica especializada, a SEARA já  era reconhecida como um dos melhores festivais de música nativista do estado.  Foram realizadas consecutivamente 11 edições da SEARA  até o ano de 1991, quando foi realizada a SEARA DAS SEARAS.. Durante o mesmo festival também aconteceu a SEARINHA DA CANÇÃO.  Nos mesmos moldes, durante a 12ª  SEARA, em 1992, foi realizada a SEARINHA DA CANÇÃO. A 13ª SEARA aconteceu em 1994.  Depois da 15ª Seara o festival somente retornou no ano de 2010 com a 16ª edição. Muitos talentos musicais nasceram nos palcos dos festivais  nativistas, especialmente da Seara da Canção. Nomes como::  Angelino Rogério, Antonio Augusto  Fagundes, Aparício Silva Rillo, Ayrton Pimentel,  Bagre Fagundes, Borguetinho, Carlos Catuípe, Carlos Magrão,  Daniel Torres, Cenair Maicá, Cezar Passarinho,  Dante Ramon Ledesma,  Delci Taborda, Délcio Tavares, Dilan Camargo, Dorotéo Fagundes, Elton Saldanha, Eraci Rocha, Eurides Nunes, Fátima Gimenez, Ivo Ladislau, Jaime Brum, Jaime Caetano Braun, João Almeida Neto, João Kadela e Grupo Kanil, José Fogaça, Lucio Yanel, Joca Martins, Luiz Carlos Borges,  Luiz Coronel, Nilo Bairros de Brum,  Porca Véia,  Sergio Napp, Telmo de Lima Freitas e  Rui Biriva, que nesta 17ª Seara recebe homenagem especial pelo seu legado entre outros
            Depois de um certo declínio, o nativismo retorna aos palcos chegando aos nossos dias,  constituindo um dos muitos modos de ser gaúcho. Reconfigurado, incorporando ritmos, instrumentos, indumentárias,  diferentes temáticas em suas letras, envolvendo crianças, jovens e adultos, a 17ª edição da SEARA DA CANÇÃO vem aí neste próximo final de semana  integrando a comunidade de Carazinho, poetas, músicos, intérpretes, críticos e imprensa em geral e sem dúvida  recolocando Carazinho novamente no  cenário dos Festivais Nativistas do Estado.

Nanci da Cruz Mafalda
Pedagoga e Analista Cultural
nda_cruz@hotmail.com

 Coluna publicada no GAD Jornal - Carazinho - RS
Tiragem Inicia l10 mil exemplares de dezesseis páginas por mês (colorido)
Email:gadjornal@hotmail.com



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