quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A CULTURA TRADICIONALISTA E A IDENTIDADE DO GAÚCHO.

A CULTURA TRADICIONALISTA E A IDENTIDADE DO GAÚCHO.

Na semana em que se abrem as comemorações da semana farroupilha, inevitavelmente somos levado a pensar, mesmo não fazendo parte de um Centro de Tradições Gaúchas - CTG, em nos nossos costumes e práticas cotidianas que nos identificam como gaúchos  dentro do nosso estado, pelo Brasil a fora  e até mesmo no exterior. Uma das formas pelas quais as identidades (ser e dizer-se gaúcho) estabelecem suas reivindicações é por meio do apelo a antecedentes históricos.
Sendo assim, o sentido dos hábitos e costumes do cotidiano da nossa cultura remontam e são construídos pela própria cultura que não é separada das condições históricas, econômicas, políticas e da organização das sociedades. Cabendo ainda salientar que as identidades não são fixas, mutáveis e são perfeitamente negociadas, principalmente em tempos de pós-modernidade, mesmo  dentro de um movimento considerado fechado em suas regras, preceitos e costumes, como o tradicionalismo criado por Paixão Côrtes através do Movimento de Tradições Gaúchas – MTG, em 1967.
Um exemplo disso é a fala da senhora Gilda Galiassi, Coordenadora da 7ª Região  Tradicionalista, quando nesta semana, em entrevista a RBS TV falava sobre a programação da semana farroupilha. Na sua fala,  dois aspectos me chamaram a atenção, a sua referência sobre como o movimento tradicionalista representa para seus membros um ‘’modo de vida’’, uma  ‘’filosofia’’ e de como esse movimento precisou em virtude das contingências invadir o urbano.
Mas retomando a questão de que as identidades tem seu apelo aos antecedentes históricos, e que esse é um efeito da cultura, mas de uma cultura pensada como práticas produzidas dentro de um contexto mais amplo já falado, podemos analisar o surgimento do termo  “”gaúcho’’, nome pelo qual é conhecido o homem do campo na região dos pampas da Argentina, Uruguai e do Rio Grande do Sul e, por extensão, quem nasce neste estado brasileiro.
Originalmente sabemos que, o termo ‘’gaúcho’’ foi aplicado em sentido pejorativo (como sinônimo de ladrão de gado e vadio), aos mestiços e índios, espanhóis e português que naquela região, ainda selvagem, viviam de prear o gado, fugindo dos povoamentos espanhóis, se espalhava e reproduzia livremente pelas pastagens naturais. Igualmente livre, sem patrão e sem lei, o gaúcho tornou-se hábil cavaleiro, manejador do laço e da boleadeira.
No século XVIII, foi o gaúcho brasileiro um instrumento de fixação portuguesa no Brasil meridional e por essas circunstâncias econômicas, políticas  e sociais cambiantes que a representação do sujeito ‘’gaúcho’’ altera-se do termo pejorativo ao ‘’herói’’, corajoso, hospitaleiro, honrado, cavalheiro, ‘’apegado aos costumes’’ protetor das fronteiras do sul Brasil. Assim, as qualidades que hoje nos desfiles e festividades farroupilhas tanto enaltecemos, lembramos, reafirmamos dessa categoria de sujeito provém dessas contingências produzidas na cultura.
Interessante ressaltar que mesmo não definindo-se como tradicionalistas, temos nossas práticas cotidianas ligadas a nossa caminhada cultural: o churrasco do domingo, o chimarrão, o carreteiro, termos como “’tchê’’, guria, ‘’trigal’’...entre tantas outras práticas.
            Em síntese, o que se ressalta aqui é que mesmo não sendo tradicionalistas por opção ao movimento, somos gaúchos por condições  diversas, mas acima de tudo somos frutos de uma cultura secular, composta por hibridações (mistura de culturas advindas de países ibéricos,  - Portugal e Espanha – e muito fortemente pela prática culturais indígenas).

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e analista cultural

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