THOMPSON, Kenneth. Estudos Culturais e educação no mundo contemporâneo. In: SILVEIRA, Rosa M. H. Cultura, poder e educação: Um debate sobre os estudos culturais em educação. Canoas: Ed. ULBRA, 2005.
O meu objetivo com a leitura e análise do presente texto é delinear de que maneira o campo dos Estudos Culturais surgiu e como se desenvolveu até hoje, assim como, examinar algumas abordagens que pelo viés dessa nova área de conhecimento que fundamentam os programas educacionais na área dos estudos de mídias sob o foco das teorias da regulação e governamento derivadas de Michael Foucault. Isso será feito a partir do texto Estudos Culturais e educação no mundo contemporâneo, de Kennet Thompson.
Conforme o autor, para falar no nascimento dos Estudos Culturais como uma atividade interdisciplinar, primeiramente é preciso partir da premissa de que seu surgimento se deu em um determinado momento histórico, mais precisamente na década de 1960, com o boom da cultura popular, especialmente em relação a juventude e o seu significado na vida das sociedades ocidentais. Um segundo aspecto ressaltado por Thompson é de que ênfases diferentes foram dadas aos Estudos Culturais nos diversos lugares do mundo de acordo com as preocupações e circunstâncias locais, assim:
Os Estudos Culturais britânicos são conhecidos por terem sido mais influentes teoricamente e os mais engajados politicamente focalizando a relação entre a cultura e as várias formas de poder, especialmente os conflitos entre a cultura dominante e várias subculturas. Já nos Estudos Culturais norte-americanos abordaram sua temática de maneira mais eclética e menos explicitamente política, embora exista uma forte ênfase nas questões de “vieses” e equilíbrio” em áreas como comunicaçõe se mídias. Nos estudos Culturais latino-americanos, focalizou-se frequentemente a resistência ao imperialismo cultural norte-americano desde 1971...THOMPSON, 2004, p.13)
Rumo ao escopo pretendido pelo autor, o qual seja, abordar os Estudos Culturais e educação no mundo contemporâneo, incluindo estudos de mídia, ele se utiliza de exemplos dos Estudos Culturais britânicos e dos estudos de mídias norte-americanos, numa perspectiva de interpretação baseada no pensamento de Foucault sobre regulação e governamentalidade. “Com ‘governamentalidade’ Foucault que chamar a atenção para as táticas e técnicas de governamento nas sociedades modernas e liberais, incluindo formas de educação que privilegiam as ‘tecnologias do eu’ (Foucault, 1998) – formando cidadãos que vão exercitar o autogovernamento’’ (ib.,16). Também enseja o autor, nesse texto, realizar abordagens sobre determinados programas educacionais que visam aumentar a capacidades de os alunos exercitarem uma “discriminação” tecnicamente informada na compreensão da cultura popular e de mídia.
Focando a questão do crescimento dos Estudos Culturais na juventude, Thompson afirma que a partir da Segunda Guerra Mundial o significado da cultura popular foi afetado pelo crescimento do mercado comercial dos produtos culturais, particularmente do mercado jovem, devido ao aumento da renda estável, principalmente dos países ocidentais ricos. Outro fator relevante para o aumento desse mercado foi o fato dos jovens começarem a definir-se pelo que gostavam nos vários gêneros midiáticos (música e seus estilos associados). Citando Todd Gitlin o autor refere que os jovens “ se relacionam não apenas com a música, mas através dela para experimentar uma noção de pertencimento cultural” (GITLIN, 1997,26).
Na visão do autor há de se reconhecer que na sociedade contemporânea as telecomunicações e a eletrônica alavancam as economias avançadas e que grande parte do que se comunica é cultura popular. E é por isso que os guardiões da ordem social tem considerado não só a juventude como também a reprodução eletrônica da cultura popular uma ameaça aos cânones da sociedade moderna. Nessa instância é de suma importância a afirmação contida no texto que diz: “as instituições educacionais são consideradas como um dos principais locais onde a ‘contestação’ e as ‘guerras culturais’ estão acontecendo” (ib. 17). Em várias analises culturais, tais instituições aparecem comumente descritas pelo que Althusser (1971) define como aparelho ideológico do estado, ou como agências para a produção e manutenção da “hegemonia ideológica” como afirmou Gramsci (1971) ou ainda como mecanismos de regulação e de governamentalização para Foucault (1988, 1991).
O enfoque ao estudo das subculturas jovens foi dado nas décadas de 1960 e 1970, por jovens estudantes de pós-graduação no Birmingham Centre for Contemporany Cultural Studies (CCCS) na Inglaterra, que influenciados pela sociologia e pelas teorias norte-americanas, o faziam voltando-se para uma visão mais democrática da cultura e pelo viés do estudo dos grupos juvenis tidos como desviantes. Com a liderança de Stuart Hall, a questão da cultura jovem ganha espaço nos Estudos Culturais. O trabalho do CCCS foi útil na elucidação das problemáticas juvenis que criavam o “pânico moral” com refere Cohen ( 1972) e o próprio Thompson (1998). Esses estudos resultaram numa coleção de ensaios intitulada Reistance Though Rituals:youth sub-cultures in post-war Britain, onde Hall e Jefferson ( 1976), Graham Murdock e Robin McCron traçaram o desenvolvimento do pensamento sociológico sobre juventude e consciência das gerações. Entre as principais idéias estavam:
Aquelas que colocam a juventude como um estágio intermediário entre a infância e a maturidade; como um barômetro do progresso; como fonte de um novo estilo generacional oposto são estilo dominante da geração adulta; gangues de adolescentes como resposta a desorganização social dos bairros; uma cultura jovem distinta centrada no consumo hedonista, livre das responsabilidades adultas de trabalho e família (ib.19)
Nota-se que o autor apresenta uma imagem ambígua da cultura jovem. É o jovem que simboliza uma sociedade de consumo emergente e afluente contrastando com o jovem que se torna uma ameaça à ordem moral marcadas pela representações midiática das tribos juvenis que aparecem nas analises culturais como responsáveis pelo “pânico moral” nos anos 70.
Segundo Thompson, a explicação dos CCCS sobre o “pânico moral” em relação subculturas é de que estas amparam-se, nos termos da guerrilha simbólica onde os membros mais jovens de várias classes resistem simbolicamente à subordinação `a cultura da classe dominante. A mídia é vista como alguém que compartilha ao valores da classe dominante e que retratam as culturas desviantes como ameaça á ordem moral e social.
O autor cita os estudos sobre as culturas jovens como a cultura Clubber, as Raves e o uso de drogas, como um dos exemplos de como a publicidade sensacionalista, contribui para o aumento do pânico moral e como faz com que a opinião pública indignada reclame ações contra a ameaça, que comumente tem como resultados o aumento da regulação por meio da legislação e medidas políticas.
Desse modo é o estudo da cultura Clubber e da Raves, que ilustram alguns caminhos pelos quais os estudos Culturais evoluíram, para atender os desafios apresentados pelo mundo contemporâneo.
Mais especificamente sobre as Raves, o autor enfatiza que se trata de um fenômeno cultural de massa, etnicamente mista, difusa, desorganizada e invisível, sendo por isso impossível conceituá-la, pois não atinge somente uma classe e não se apresenta como resistência, apresentando-se sim, preocupada com a diversão, o prazer social e não com a mudança do status quo. Diante desse contexto, é possível afirmar que esta pode ser retratada, em virtude da sua superficialidade, em termos de mercado onde “os consumidores são incitados a se individualizarem e onde as operações de poder tendem a favorecer a classificação e a segregação (Thortn, 1995) (ib, p. 21).
Assim, os Estudos Culturais e a Educação buscam preparar o jovem para que possa distinguir os conteúdos ideológicos dos textos midiáticos e para que possa perceber as possibilidades de se oferecer resistência a ideologia dominante.
Se o ponto de partida dos Estudos Culturais em sua fase inicial estava focalizado nas questões de hegemonia cultural e resistência a essa hegemonia, como por exemplo, nos estudos de algumas culturas jovens, na contemporaneidade essa área de estudo volta a sua atenção para as questões de política cultural e regulação através dos processos de governamentalidade, na educação, nos museus e na mídia. A noção de governamentalidade de Foucault “sugere uma abordagem diferente na qual os professores são vistos como técnicos na burocracia do Estado, que promove o governamento à distância ao produzir pessoas auto-reguladas – cidadãos responsáveis e auto-reflexivos” (ib, p. 25).
Nesse sentido, corrobora Hall ( 1981), no texto de Thonpsom quando diz que:
Muito frequentemente professores ligados aos EC tem se enxergado como profissionais independentes que promovem a crítica aos produtos culturais midiáticos e se encarregam de promover a resistência aos mesmo, seja revelando o viés ideológico da codificação dominante e hegemônica. Seja celebrando as capacidades das audiências ativas para decodificarem a mensagem midiática em outro código negociado ou mesmo em um código oposto (ib, p. 25).
Desse modo, o conceito de governamentalidade enfatiza que os processos re regulação social no Estado Liberal e moderno não sejam voltados contra o indivíduo, mas constituintes de modos auto-reflexivos de conduta e competências éticas.
Dentro dessa perspectiva o autor nos suscita duas abordagens: a crítica ideológica, que focaliza a codificação e a decodificação dos significados dos textos midiáticos e a da governamentalidade, que por sua vez focaliza os procsssosa institucionais através dos quais os programas educacionais nos estudos de mídia estão envolvidos na formação do cidadão e então constituem o “governamento a distância”
Desse modo o que Thonpsom deixa claro, que os programas educacionais dos estudos de mídia, apontam a necessidade dos professores assumirem o ônus de desconstruir a suposta ideologia e de sugerir leituras alternativas ou opostas, pois segundo a visão de Stuat Hall, os Estudos Culturais são, por si mesmos, uma prática política e os seus saberes nunca são neutros ou “objetivos”.
Segundo o documento intitulado “estratégias para Integração do Analfabetismo midiático no Currículo dos estudos Sociais”, o propósito principal dos Estudos Sociais é ajudar os jovens a desenvolverem a habilidade de tomar decisões embasadas e sensatas para ao bem público como cidadãos de uma sociedade culturalmente diversa e democrática dentro do mundo independente. A colocação dos estudos de mídia dentro da estrutura dos Estudos Sociais está vinculada com a preocupação com a cidadania responsável.
Essa perspectiva se ajusta a descrição de governamentalidade de Foucault, na qual a educação usa a técnica pra formar cidadãos responsáveis. O autor acaba por concluir que os Estudos Culturais não podem mais se apoiar na dicotomia da “alta/boa cultura” contra “baixa/má cultura”. Os Estudos Culturais contemporâneos e os estudos de mídia são conscientes que a cultura popular é por demais polissêmica para ser descartada. O que os estudos Culturais precisam fazer é manter um variedade de perspectivas. Nos programas educacionais como os Estudos Culturais e os estudos de mídia, podem ajudar os educadores e as instituições educacionais a desenvolverem a consciência das variadas motivações e valores, assim como fornecer dados para a pesquisa que estimem os efeitos das suas políticas e praticas.
E finalmente, após todas as considerações feitas pelo autor sobre os Estudos Culturais e educação no mundo contemporâneo que tiveram como abordagens principais o desenvolvimento dos EC focalizando os estudos das culturas jovens e os EC na área dos estudos de mídia, aqui focalizando as teorias de regulação e governamento de Michael Foucault, levou-me a compreensão de que os Estudos Culturais se constituem em um campo de estudo interdisciplinar ou transdisciplinar que tem suas origens no contexto da própria contemporaneidade e das suas manifestações contra a alta-cultura e as elites sociais, ao mesmo tempo em que põe em evidência as manifestações sobre cultura popular urbana, como por exemplo, as culturas juvenis. A mídia, nesse contexto, quando representa as culturas juvenis desviantes, tende a educação regulação
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