quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sujetos em tránsito: (in)migración, exilio y diáspora em la cultura latinoamericana


  
BRAVO, Fernández Á.; GARRAMUÑo F. Sujetos em tránsito: (in)migración, exilio y diáspora em la cultura latinoamericana. Alianza Editorial S.A Madrid – Buenos Aires.p.11-



Em 2002, aconteceu na Argentina,  um encontro que reuniu vários intelectuais,  cuja intenção era a de pensar sobre  a problemática  latino-americana relativa  ao  deslocamento dos sujeitos por meio da (i)migração, exílio e diáspora dentro do contexto contemporâneo da globalização. Em pauta, foram levantados aspectos relacionados às conseqüências e efeitos decorrentes desse processo sobre as subjetividades que se tornaram  nômades, instáveis, fraturadas, híbridas e não unitárias. Como resultado dessas discussões Álvaro Fernandez Bravo e Florência  Garramuño  copilaram uma série de artigos em um livro intitulado ‘’Sujeitos em trânsito: (in)migración, exilio y diáspora em la cultura latinoamericana’’.   
Na introdução, os organizadores situam a problemática apontada no livro, a qual busca refletir sobre como as identidades migratórias se constituem dentro da representação, mais especificamente, de que modo essas subjetividades errantes se articulam e necessitam ser lidas fora de todo relato teleológico, unitário e homogeneizante.  É importante ressaltar que as análises propostas pelo livro trata-se de experiências históricas latino-americanas decorrentes de cerca de cem anos do começo da imigração massiva e de quase trinta anos  do início da ditadura
Essa perspectiva de discussão a cerca do sujeito em mobilidade, deslocado, desterritoalizado, reterritoalizado ou nômade, se apóia no postulado de que uma pessoa não é mais identificada  pelo país de nascimento, nem pela família, nem pela profissão,  nem pelas relações de amizade ou amorosas, nem mesmo pela propriedade. Nunca como agora tantas pessoas parecem imaginar rotineiramente a possibilidade de elas ou os seus filhos viverem e trabalharem em lugares diferentes daqueles em que nasceram: isto pode ser um índice do aumento da taxa de migrações nos níveis da vida social, nacional e global.
É como se toda identidade definida pelo estatuto e pelo lugar (de origem, de trabalho, de domicílio etc.) fosse reduzida, se não dissipada, pela velocidade de todos os movimentos possíveis pelas experiências ‘’fora do lugar’’, pela porosidade  das fronteiras geográfica, pela desnacionalização e transnacionalização,   pela aproximação entre o  tempo e o espaço – efeitos da pós-modernidade.
 Nesse sentido, é que Bravo e Garramunõ deixam explícito que as questões que interessam  no livro são  percebidas não como uma forma de restabelecer - uma impossível - unidade de identidades fraturadas pelos deslocamentos, mas sim, como relatos de um hiato entre o sujeito  e seu mundo, invariavelmente tencionadas e menos tranqüilizadoras sobre as implicações políticas, sociais e culturais de tais deslocamentos.
No sentido de compreender as possíveis tensões e relações entre economia e cultura, entre mercados e identidades culturais deve-se levar em conta que as migrações, antes de serem internacionais, são nacionais, ou seja, todo o cenário de angústia e insegurança, junto às crises econômica, ambiental e social surge a partir do local. Como já mencionado, no caso da América Latina, isso está estreitamente ligado a migração massiva e aos sistemas ditatoriais.
 Os fluxos migratórios então se desenvolvem em âmbitos nacionais, a ponto de se desenvolverem e ampliarem esse cenário para além das fronteiras, chegando a proporções internacionais. Por isso, percebemos que o foco está em entender qual a situação daqueles que migram - os refugiados, os exilados, os deslocados.
Considerando essa perspectiva cabe-nos questionar como compreender esse sujeito fruto da imigração nômade e instável? Como compreendê-lo dentro da sua condição de exilado? Ou quem é esse sujeito diásporico? Como ler a proliferação de significado - a mobilidade e a incerteza do lugar - sem re-estabelecer o seu próprio abandono das raízes, a sua oposição ao Estado, sua emigração da cidadania e o cosmopolitismo?
Reflexões a esse respeito podem ser levantadas através da  exploração dos discursos e representações suscitadas por relatos, cartas, filmes, fotos e ensaios produzidos em torno da subjetividade fraturada e múltipla do sujeito que se desloca individual ou coletivamente e dos debates suscitados  por esse movimento, sempre considerando que as identidades se constituem  dentro e fora das próprias representações como bem sugere Stuart Hall. São essas análises que compõe ‘’Sujeitos em trânsito’’.
Uma dessas análises é a que faz Julio Ramos sobre as fotografias  de Sebastião Salgado em ‘’ Coreografias do terror’’ onde  refere que pela  estética é possível pensar e articular as críticas  ao neoliberalismo, sendo ela um espaço de justiça alternativa, para sujeitos desprovidos de voz e de  vez.
Sebastião Salgado é mineiro e aos vinte e nove anos desiste de sua carreira como economista e dedica-se ao universo da fotografia. Definido como fotodocumentarista, ele centra seu trabalho na investigação do fenômeno global de deslocamentos refletindo sobre as possíveis tensões provocadas pela globalização  nas migrações humanas.
 Ao fotodocumentar cadáveres e corpos moribundos, despojados de agência e de direitos e nitidamente postos como restos do projeto de modernidade, Salgado traz a baila o discurso oculto e celebratório da globalização.  Por meio então, de uma  perspectiva estilizante, propõe  uma nova reivindicação da universalidade dos direitos,  ao tempo  em que assume uma postura de ataque aos poderes biopolíticos, ou seja, a experiência estética, pode ser  vista,  como exercício de direitos nas sociedades onde estes não podem ser estabelecidos.
Com efeito, é importante considerar  que mesmo a globalização  não abarcando todas as instâncias da sociedade  de forma homogênia, pois os Estados-Nação ainda possuem papel significativo a desempenhar na governabilidade econômica,  seus processos inegavelmente transcendem os grupos, as classes sociais e as nações.
O trabalho de Sebastião Salgado retrata através da imagem a visão contemporânea de milhões de seres humanos em movimento que foge de guerras, revoluções, da opressão política, da pobreza das zonas rurais para as favelas que crescem em torno das cidades submetidas uma expansão permanente.
Através da linguagem fotográfica  Salgado articula possíveis relações de elementos de significação que são capazes  de capturar o olhar do público por meio da subjetividade
 Duas características são fundamentais no seu trabalho. Uma diz respeito à relação  entre as palavras e as imagens e a  outra, sobre a imagem e a etnografia, enquanto práticas  criadora do ‘’outro’’. Dentro dessa perspectiva é possível destacar obras como ‘’Na Uncertain Grace’’, ‘’Trabajadores’’, ‘’Terra’’ e ‘’Êxodos’’. Nelas estão explicitas o poder interpelador do seu projeto, calcado naquilo que pode ser dito como  emergência de novas formas de realismo.
Essa emergência é explicada por Roland Barthes em seu livro ‘’Câmara clara’’  quando discorre sobre o  Punctum.  Para ele o Punctum é algo que parece decorrer da própria imagem, algo que lhe toca independentemente daquilo que seu olhar busca. Trata-se de  um detalhe na imagem que, por uma força que concentra em si, atinge o leitor e lhe mobiliza involuntariamente o afeto. Em síntese,  é  aquilo que nos atinge e nos comove em uma fotografia.
            Ao exibir corpos desnudos, magros, moribundos, em estado de abandono, Salgado leva o gênero documentarista aos limites de suas possibilidades, ate então visto somente em fotografias de guerra.
            Salgado  em conversa com o  com John Berger, crítico de arte, inglês,  no documentário ‘’ O espectro da Esperança’, analisam a partir  do resultado de dois dos seus projetos:  ‘’Êxodus’’  e ‘’Crianças’’.  Nesse diálogo,  é de consenso  de que as duas temáticas referidas surgiram do princípio de que a globalização é um movimento perverso, que tem como beneficiárias as grandes corporações e como conseqüência o empobrecimento de grandes parcelas da população mundial. Esse é o mote da conversa de Salgado e Berger, que procuram analisar não só a qualidade da fotografia, mas o aspecto humano que elas retratam.
Através de suas lentes, Salgado interpretou as características dos  migrantes, onde estavam e quais as causas migratórias, transferindo a sua concepção da realidade para a imagem fotográfica.  Segundo ele, nem o migrante, nem o refugiado, nem o exilado, migram por vontade própria, todos advém de países periféricos e migram por necessidades de sobrevivência.  Todos independente da razão que os levaram a migrar são pertencentes a uma mesma situação de miséria, como a razão desse fenômeno tivesse tido como causa a pobreza.
No decorrer da obra o “Êxodos” é possível encontrar diversas  realidades e causas diferenciadas de migrações.  No entanto,  por meio das diferenças latentes nos signos fotográficos comuns para os observadores, o fotógrafo busca construir a narrativa a partir das semelhanças,  mesmo  não podendo simbolizar a igualdade, de uma mesma situação de conflito, um mesmo local geográfico ou nos mesmos traços culturais. Desse modo, o sujeito migrante não pertence a um local específico:  ele pode ser um estrangeiro sem mesmo sair do seu país ou do seu continente.
Imbricado na mobilidade dos migrantes, está o conceito de diáspora retrato pelas lentes de Sebastião Salgado, o qual se repousa sobre a idéia de dispersão de povos por motivos políticos ou religiosos, em virtude da perseguição de grupos dominadores e intolerantes, tendo como exemplo  o movimento dos judeus no decorrer dos séculos. Na contemporaneidade, o fenômeno da diáspora, sedimenta-se como refere Stuart Hall (2003), nas vivências da atualidade. De acordo com esse autor a pobreza, o subdesenvolvimento, a falta de oportunidades, frutos do imperialismo, são as causas que motivam as pessoas a migrarem e buscarem novas  alternativas de vida, gerando espalhamento e a dispersão das populações. A partir disso, acontece o trânsito de pessoas entre os países, abrindo espaço para o acontecimento da diáspora.  
Conforme Hall (2003)  a diáspora busca compreender as relações da globalização, das migrações nas constantes hibridizações culturais. É o conceito de diáspora que permite-nos  compreender sobre   as identidades  dos sujeitos destituídos de ‘’pátria’’   e de direitos  e oriundos  de muitos fontes e fenômenos que não estão relacionados  apenas à condição  racial,  mas também,  a formas geográficas, políticas de culturais de vida implicadas nos deslocamentos populacionais da América Latina.
            Dessa condição as estruturas  e práticas sócio-culturais que existiam em formas separadas, combinam-se e geram novas estruturas e práticas gerando mesclas culturais. Na transitoriedade dos sujeitos, as (i) migrações, exílios e diásporas fomentam as hibridizações culturais que acontecem onde repertórios se entrecruzam, não sem tensões, não sem conflitos, não eximidos das relações de poder. 
            Sebastião Salgado, através da idéia de uma justiça estética, faz da sua fotografia uma forma de  mostrar o lado perverso  da globalização,  que solapa os direitos humanos, põe em colapso a figura do Estado frente aos processos diaspóricos.  Assim,  a estética  é tida como um dos poucos espaços por meio do qual é possível reclamar ‘’voz’’  a quem é vítima dos processos globalizantes do mundo pós-moderno.

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