Me perguntaram qual o sentido do nome
desta coluna - FATO CULTURAL'' tendo a palavra ''artefato''
separada. Respondendo aos leitores que estranharam essa forma de escrita, digo
que esta coluna tem como proposta não falar ou divulgar fatos específicos da
área cultural ( até porque, isso este jornal faz com propriedade), nem de fazer algum tipo de explanação
teórica sobre história, arqueologia ou áreas
afins, mas sim entender que ''artefato''
entre tantas definições pode definido como obra ou trabalho produzido pelo homem
em qualquer tempo. E neste espaço queremos falar dos artefatos que são produzidos hoje, que
não são somente objetos, mas podem ser filmes, programas de televisão, músicas,
documentos, internet, etc... e tecer algumas relações entre eles e nossa vida
cotidiana, na modesta intenção de que o leitor possa ver de modo diferente
aquilo que esta acostumado a ver, lidar,
pensar cotidianamente. E escrita separadamente, além de provocar justamente a
curiosidade, justifica-se pela ideia de amplitude das possibilidades de pensar
sobre as coisas do nosso dia a dia.
Jornal
- este é o artefato que analisaremos hoje para tentar provocar no leitor(a) um
estranhamento daquilo que já estamos acostumados a ''comemorar'' todo dia 8 de
março: dia da mulher! Mais precisamente falo o jornal Zero Hora do dia
08/03/2012. Por entre as páginas de todo o jornal vemos propagandas de produtos
farmacêuticos, carros, roupas,
cosméticos, moda íntima, móveis e decorações... todas ilustradas com belas
mulheres jovens de cabelos loiros ou morenos e pele branca, corpos esculpidos,
peles perfeitas, vestidas com roupas da última tendência da moda, num cenário
de muita cor rosa, de muitas rosas e pérolas . Todos esses produtos nos mostrando
por essas mulheres nos oferecem (vendem) a oportunidade de sermos belas,
charmosas, encantadoras, sedutoras, independentes.... entre tantos outros
atributos exigíveis pela sociedade de uma mulher do século XXI.
O
interessante é que no segundo caderno desse mesmo jornal, desse mesmo dia o
título da reportagem é: ''8 mulheres que admiramos'' . Nela cineastas, escritos, artistas, músicos, psicanalistas,
compositores, professores escolheram: Fernanda Montenegro (atriz) Jeanne Moreau
( atriz), Joni Mitchel (cantora canadense), Regina Silveira ( artista
plástica), Carlota Albuquerque (coreografa), J.K. Rowling (autora inglesa da
série Harry Potter), Rita Lee ( cantora)
e Barabara Heliodora ( professora, tradutora e historiadora, ligada ao
teatro), como os modelos de mulher que
mais admiram. Muito bem, analisando a imagens dessas mulheres, a considerar o
fato de serem famosas por seu trabalho e estarem elegantemente vestidas, o fato
é que todas, nesse caso, são mulheres maduras, que trazem na face, nos cabelos,
na pele, nos gestos (captados pela câmera fotográfica) traços e marcas do tempo. Tempo que cada uma dentro das suas escolhas profissionais e pessoais que fizeram
nada parecem com aquelas mulheres que com faces e belos corpos, tentam dizer
através da sua imagem quem devemos ser como mulheres. Fica a pergunta: contradição? Ou acumulação
de todos os jeitos de ser? Ou ainda, qual dessas mulheres buscamos ser? Ou
seja, que raio de mulher sou eu ou é você? Queremos ou necessitamos ser todas
elas juntas? Sermos belas a todo custo (plásticas, tratamentos estéticos,
maquiagem...), elegantes, requintadas, educadas, bem sucedidas profissionalmente, joviais,
sensíveis, fortes, mães, profissionais, amantes, esposas, namoradas, sozinhas
(porque não?)?
Fico
pensando que qualquer uma dessas mulheres citadas, devem como nós acordar
despenteadas, sem maquiagem, ter quilinhos a mais, ter o dia que não deu para
fazer a unha, ter projetos profissionais
ou pessoais que não deram certo, entre tantas coisas do gênero. Mas também ouso pensar também
temos um pouco de cada uma dessas mulheres. Sem extremos ou culpas (pelo menos
deveria ser assim), estamos aí, no mundo de tantos modelos, de tantas imagens,
de tantas exigências buscando saber quem somos e sabendo disso buscando
espaços, principalmente para viver melhor.
Para
reflexão fica a frase publicada no editorial desse mesmo jornal (p. 14): ''
causa feminina acumula ganhos, ainda que num ritmo lento, mas, enquanto um dia
especificamente dedicado à mulher continuar coma importância de hoje, será
sinal que nem todos os avanços possíveis foram assegurados''
Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e analista
cultural
Coluna publicada no Jornal GAD Notícias –
Carazinho – Tiragem Inicial 10mil exemplares
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