sábado, 28 de abril de 2012

QUE RAIO DE MULHERES SOMOS NÓS??


Me perguntaram qual o sentido do nome desta coluna -  FATO  CULTURAL'' tendo a palavra ''artefato'' separada. Respondendo aos leitores que estranharam essa forma de escrita, digo que esta coluna  tem como proposta  não falar ou divulgar fatos específicos da área cultural ( até porque, isso este jornal faz com propriedade),  nem de fazer algum tipo de explanação teórica  sobre história, arqueologia  ou áreas  afins, mas sim entender que ''artefato''  entre tantas definições pode definido como  obra ou trabalho produzido pelo homem em qualquer tempo. E neste espaço queremos falar  dos artefatos que são produzidos hoje, que não são  somente objetos, mas podem ser  filmes, programas de televisão, músicas, documentos, internet, etc... e tecer algumas relações entre eles e nossa vida cotidiana, na modesta intenção de que o leitor possa ver de modo diferente aquilo  que esta acostumado a ver, lidar, pensar cotidianamente. E escrita separadamente, além de provocar justamente a curiosidade, justifica-se pela ideia de amplitude das possibilidades de pensar sobre as coisas do nosso dia a dia.
            Jornal - este é o artefato que analisaremos hoje para tentar provocar no leitor(a) um estranhamento daquilo que já estamos acostumados a ''comemorar'' todo dia 8 de março: dia da mulher! Mais precisamente falo o jornal Zero Hora do dia 08/03/2012. Por entre as páginas de todo o jornal vemos propagandas de produtos farmacêuticos, carros,  roupas, cosméticos, moda íntima, móveis e decorações... todas ilustradas com belas mulheres jovens de cabelos loiros ou morenos e pele branca, corpos esculpidos, peles perfeitas, vestidas com roupas da última tendência da moda, num cenário de muita cor rosa, de muitas rosas e pérolas . Todos esses produtos nos mostrando por essas mulheres nos oferecem (vendem) a oportunidade de sermos belas, charmosas, encantadoras, sedutoras, independentes.... entre tantos outros atributos exigíveis pela sociedade de uma mulher do século XXI.
            O interessante é que no segundo caderno desse mesmo jornal, desse mesmo dia o título da reportagem é: ''8 mulheres que admiramos'' .  Nela cineastas, escritos, artistas, músicos, psicanalistas, compositores, professores escolheram: Fernanda Montenegro (atriz) Jeanne Moreau ( atriz), Joni Mitchel (cantora canadense), Regina Silveira ( artista plástica), Carlota Albuquerque (coreografa), J.K. Rowling (autora inglesa da série Harry Potter), Rita Lee ( cantora)  e Barabara Heliodora ( professora, tradutora e historiadora, ligada ao teatro), como  os modelos de mulher que mais admiram. Muito bem, analisando a imagens dessas mulheres, a considerar o fato de serem famosas por seu trabalho e estarem elegantemente vestidas, o fato é que todas, nesse caso, são mulheres maduras, que trazem na face, nos cabelos, na pele, nos gestos (captados pela câmera fotográfica) traços  e marcas do tempo. Tempo  que cada uma dentro das suas  escolhas profissionais e pessoais que fizeram nada parecem com aquelas mulheres que com faces e belos corpos, tentam dizer através da sua imagem quem devemos ser como mulheres.  Fica a pergunta: contradição? Ou acumulação de todos os jeitos de ser? Ou ainda, qual dessas mulheres buscamos ser? Ou seja, que raio de mulher sou eu ou é você? Queremos ou necessitamos ser todas elas juntas? Sermos belas a todo custo (plásticas, tratamentos estéticos, maquiagem...), elegantes, requintadas, educadas,  bem sucedidas profissionalmente, joviais, sensíveis, fortes, mães, profissionais, amantes, esposas, namoradas, sozinhas (porque não?)?
            Fico pensando que qualquer uma dessas mulheres citadas, devem como nós acordar despenteadas, sem maquiagem, ter quilinhos a mais, ter o dia que não deu para fazer a unha,  ter projetos profissionais ou pessoais que não deram certo, entre tantas coisas  do gênero. Mas também ouso pensar também temos um pouco de cada uma dessas mulheres. Sem extremos ou culpas (pelo menos deveria ser assim), estamos aí, no mundo de tantos modelos, de tantas imagens, de tantas exigências buscando saber quem somos e sabendo disso buscando espaços, principalmente para viver melhor.
            Para reflexão fica a frase publicada no editorial desse mesmo jornal (p. 14): '' causa feminina acumula ganhos, ainda que num ritmo lento, mas, enquanto um dia especificamente dedicado à mulher continuar coma importância de hoje, será sinal que nem todos os avanços possíveis foram assegurados''

Nanci da Cruz Mafalda – Pedagoga e analista cultural
Coluna publicada no Jornal GAD Notícias – Carazinho – Tiragem Inicial 10mil exemplares

Nenhum comentário:

Postar um comentário