sábado, 28 de abril de 2012

Uma visão crítica da Modernidade.

TOURAINE, Alain. Uma visão crítica da Modernidade. Cadernos de Sociologia, Porto Alegre, v. 5, n.5,  1993. pgs.32-41


1- Dados sobre o autor e sua obra.

Professor de história, sociólogo, doutor em letras, Alain Touraine nasceu na França em 1925. Na década de 1950, criou o Laboratório de Sociologia do Trabalho na França. Nos anos 60 foi presidente da Société de Sociologie Française. Foi co-fundador  da revista Sociologia Du Travail. O seu pioneirismo no estudo da condição operária do capitalismo industrial levou-o a escrever “ La conscience ouvriére” em 1966.
Sua paixão pela América Latina data também dos anos 50. Casou-se com uma chilena e foi no Chile que criou o Centro de Investigação em Sociologia do Trabalho na Universidade do Chile, vindo a exercer forte influência na sociologia latino-america. Entre as décadas de 1960 e de 1970, antecipava o fim do industrialismo e a emergência da “sociedade pós-industrial”. É a partir de então, que faz a transição da sociologia do trabalho para a sociologia dos movimentos sociais, ou seja, a sociologia da ação. Cria então, o Centro Estudos dos  Movimentos Sociais e se torna vice-presidente  da Associação Internacional de Sociologia.
No começo dos anos de 1980, por conta dos novos movimentos sociais dedica-se a estudar, durante um ano, na Polônia, o Solidarnosc. Criou em 1981 o Centre d’analyse ET d’intervention sociologiques, sediado na École de hautes ètudes em Sciences Sociales. A partir de então, o conceito de sociologia como intervenção tornou-se sua linha de conduta. Sua ligação com a América Latina levou a escrever em 1988 “La Parole ET le Sang”, inicialmente escrita no Chile. A nova realidade social do final dos anos de 1980, o faz intuir uma nova emergência: a de um mosaico de novos atores sociais.
Em 1984  escreveu “Le Retour de L’Acteur”. A queda do muro de Berlin em 1989,  mais o convenceu  dessa nova situação que o conduziu à compreensão, anos mais tarde, dos movimentos anti-globalização. Em 1995, escreve duas obras marcantes desta nova fase que são “Pourrons-nous vivre ensemble?” de 1997, onde lançou a máxima “iguais e diferentes” e Comment Sortir Du libéralisme em 1999.


2- Elucidação da terminologia básica.


- Modernidade: na tradição ocidental tem sido definida pelo progressivo triunfo da razão sobre as tradições, da ação científica ou tecnológica sobre sistemas de controle social e cultural. Já politicamente significa a identificação da ação voluntária com as leis naturais da história e o marxismo é a escola política mais influente, a qual tratava do homem e o conjunto de suas relações sociais e do caráter básico dos modos e das relações de produção de onde se processava a divisão de classes na sociedade.
- Funcionalismo: escola de pensamento social essencial ao conceito de modernidade, pois possibilitava compreender e ajustar os sistemas de regulações da sociedade, através de uma representação da ordem social, onde as normas deveriam ser explicadas  pela função que elas desempenhavam do ponto de vista da sociedade global, no caso, uma elite esclarecida, masculina, burguesa e ocidental.
- Pós-modernidade: segundo o autor refere-se não a definição de uma era, mas é o reconhecimento da decomposição da modernidade, onde não se postula mais que a abundância, democracia e felicidade pessoal progridem juntas.
- Racionalização: pelo período que correspondeu a primeira fase da sociedade industrial a racionalização  tornou-se princípio  central da ação social, mas a partir  do final do século XIX  essa situação se modifica porque a sociedade orientada até então para a produção, passa a ser a orientada para o consumo. Isto faz com que a racionalidade seja reduzida à mera instrumentalidade e subordinada a demanda tal como se expressa pelo mercado. Sociologicamente, a racionalização é sinônimo de realização e é o objetivo comum para todos os atores de uma sociedade moderna.
- Subjetivação: No século XIX o mundo da subjetividade tornou-se anti-racional, ou seja, os atores sociais foram esmagados em sua subjetividade pela racionalização. Já na contemporaneidade Foucault diz que subjetivação nada mais é do que a transformação de seres humanos em “objetos” da sociedade, ou seja, é a subordinação dos indivíduos à utilidade social. Touraine por sua vez, entende a subjetivação como a construção do sujeito quando se opõe à procura de uma felicidade que só pode nascer da recomposição de uma experiência de vida pessoal e autônoma que não pode, nem quer escolher entre a globalização onipresente e a identidade.

3    Identificação do tema

Em “ uma visão crítica da modernidade”, Touraine,  em oito tópicos levantados no texto,  tece críticas às ancoragens propostas  pela modernidade, partindo do conceito desta na sociedade ocidental, o qual apontava  para a  criação de um novo mundo e de uma nova imagem de homem, que era definido pelo seu poder criativo, que era  conquistada quando as leis da  natureza eram compreendidas e utilizadas  para fortalecer seu controle das forças naturais.

4    - Apreensão da problemática.

            O problema examinado por Touraine diz respeito ao exame e a crítica dos cânones da modernidade que entraram em crise no século XX, e ele o faz sob a égide dos conceitos da tradição ocidental. Sua visão alarga-se para além da concepção de uma modernidade limitada, mas avança para a análise do modo de viver da sociedade atual nas instâncias culturais, sociais, políticas e econômicas, apontando para o conflito entre a racionalização e a subjetivação

5 – Proposição fundamental da tese.

A proposição fundamental da tese de Touraine, em “ uma visão crítica da modernidade” é a de que a partir do final do século XIX a modernidade como tradicionalmente concebida começa a sofrer rupturas, em função da passagem de uma sociedade da industrialização para uma sociedade do consumo em massa, onde a racionalidade que antes definia os objetivos da vida social (ordem, progresso, felicidade pessoal), passa  a ser subordinada às condições expressas pelo mercado capitalista. Nesse ínterim, conflituam-se as noções de ordem e norma social, de sujeito e seu papel na sociedade, e das questões de subjetividade e de racionalidade.

6    -  Levantamento da argumentação.

Em síntese, o autor argumenta em favor do diálogo entre racionalização e a subjetivação para explicar a modernidade na sua plenitude. Não o faz sem dar visibilidade ao conflito que se estabelece a partir do momento em que nos dá a noção de que o mundo moderno não se guia mais exclusivamente pela racionalidade que identificava interesses e ideologias dominantes, mas atenta para a defesa da personalidade individual e dos interesses das minorias  tendo como agente o movimento social: homo economicus x homo culturalis.

7    – Resumo.


Para Touraine, a modernidade significou o triunfo da razão sobre as tradições, da ação científica ou tecnológica sobre o sistema de controle social e cultural, do universalismo sobre o particularismo, da produção sobre a reprodução, caracterizando-se pela  expressão historicista da “razão objetiva”, tendo a  tradição marxista como  a mais influente escola de política moderna. O funcionalismo, introduzido por  Maquiavel  tornou-se o  princípio central da filosofia clássica, de Hobbes e Rousseau a Durkhein e Parsons, como escola de pensamento social, a qual foi um elemento essencial do conceito geral da modernidade, determinando que as normas sociais  deviam ser definidas em referência a sua utilidade social, pela funcionalidade de instituições e comportamentos.
Para ele, na modernidade o progresso é transformado  na ideologia central das novas elites “republicana” ou “liberal” da Europa e das Américas secularizadas, além de servir como instrumento “revolucionário” de destruição de “Antigos Regimes” e de meio para submeter categorias tradicionais ou irracionais à norma de uma elite esclarecida, masculina, burguesa e ocidental.
Afirma também, que é na primeira fase da sociedade industrial que a racionalização tornar-se o princípio fundamental da ação social onde a Grã-Bretanha  foi tida como fabricante de bens de consumo para o resto do mundo e pequena parte  da Europa ocidental e da América do Norte, que  parecia dominada por esse ideal  nas atividades militares e administrativas  e na vida econômica.
Enfatiza o autor,  que os cientistas sociais estabeleceram resistência ao fato  da subordinação da produção à demanda e houve a tentativa de resgatar o pensamento  racional pela eliminação do sujeito  como uma visão perigosa, como o instrumento de repressão dos impulsos naturais pelos dispositivos de controle social e socialização (subjetivação – subordinação dos indivíduos à utilidade social - Foucault).
Ensina Touraine, que no final do século XIX, o mundo da subjetividade tornou-se anti-racional e com freqüência  fundiu-se com os movimentos sociais. Depois dos séculos XVIII e XIX o pensamento moderno é dualista de novo (racionalização/subjetivação), de triunfante monismo e identificação da modernidade com a racionalidade. A identificação feita pelo século XIX entre o progresso econômico  e a libertação social foi desafiada pelo século XX e a subjetividade dos atores sociais emerge do esmagamento da racionalização. Para  além da crítica dos sistemas todo-poderosos de dominação e manipulação o indivíduo, só pode encontrar criatividade nas artes. Citando Foucault,  o autor assinala que o progresso da subjetivação ao longo da Cristandade  e as referências crescentes à subjetividade nos tempos modernos afirma que esta significa a transformação dos seres  humanos em súditos de um Príncipe  cada vez mais impessoal.
Segundo ele, é o triunfo da racionalidade instrumental. Surgem os regimes totalitários, nazistas, comunistas ou nacionalistas com a intenção de criar um novo homem, defender e criar identidades coletivas, e inventar tipos diferentes de modernização.
Na metade do século XX, após a Segunda Guerra Mundial, mudam os padrões de consumo e a sociedade orientada para a produção foi transformada em sociedade do consumo de massa e a racionalidade foi reduzida à mera instrumentalidade subordinada a demanda tal como esta se expressa no mercado. A sociologia desaparece e a pós-modernidade surge em reconhecimento da decomposição da modernidade.
Desse modo, a ideologia modernista desaparece: poucos cientistas sociais pensam ainda que abundância, democracia e felicidade pessoal progridem juntas, ou que é preciso aceitar a fatalidade de uma geração sacrificada para construir um brilhante futuro para todos. Ao contrário, a modernidade é cada vez mais identificada com as forças de mercado impessoal  ou com poder militar, enquanto a subjetividade parece ligar-se, à defesa anti-modernista de uma identidade individual ou coletiva ameaçada.
Para Touraine, a idéia de pós-modernidade nos  propõe escolhas insatisfatórias (visão objetiva  e subjetiva) sendo recomendável  reexaminar a idéia de modernidade, sobretudo criticar a identificação exclusiva da modernidade com a racionalidade. Emerge a concepção dualista do homem (Descartes – Corpo (razão) e alma) e a  modernidade  não é vista mais como a passagem da religião à razão, mas a ruptura de cosmologias que identificavam leis naturais com as intenções de Deus e fundiam a filosofia grega com revelações hebraica ou cristã. No começo significava separação entre natureza e subjetividade
O autor recomenda que o grau da modernidade deva ser avaliado não pelo grau de secularização, mas, pelo grau de separação e combinação entre dois processos complementares e conflitantes: racionalização e subjetivação. No século XX  - escola de Frankfurt – identifica a modernidade com razão instrumental e a ruptura entre o homo economicus e homo culturalis, entre a elite governante e as categorias exploradas.
Touraine é firme na sua argumentação quando enfatiza que instala-se o conflito entre a racionalização e a subjetivação. A racionalização que  corresponde a interesses e ideologias das elites dirigentes, despotismo esclarecido, defesa de liberdade pessoal sempre correspondentes a interesses e orientações de grupos ou indivíduos dominados. E a subjetivação que vem conflituar as monarquias absolutas e o individualismo burguês  nos séculos XVIII e XIX, assim como, os outros métodos de racionalização empresariais e a defesa da autonomia individual e coletiva dos trabalhadores, e recentemente a defesa da personalidade individual face a indústrias culturais tecnologicamente modernizadas como a assistência médica, a educação ou os meios de comunicação de massa
Assim sendo, a modernidade pode ser avaliada pela capacidade de compreender diferentes orientações universalistas, assim como os particularismos dos povos e perceber a verdade e autenticidade nas palavras e comportamento dos outros, como diz Habermas de maneira tão convincente.
Encerra Touraine, dizendo que a identificação de racionalização, realização e individualismo perdeu sua auto-confiança e que o progresso não é mais identificado como crescimento econômico e liberdade pessoal. Devemos, pois, considerar como mais modernos os sistemas sociais que reconhecem melhor as relações complementares e conflitantes entre racionalização e subjetivação, ou seja, considerar como modernas todas as formas de combinação entre eficiência econômica e direitos humanos, entre valores universalistas e experiências específicas e tradições culturais, a fim de evitar a perigosa ruptura entre elites hegemônicas, políticas, econômicas, e grupos dominados em busca de identidade.

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